Modiglianesca

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Deitada, arfante e nua

a pele em degredo, multiascendente

falha em dominar-se

pulsa.

 

Eu-lírico

beijo-a

e invento palavras

sinestesias

fissuras

Tomado de experiências

fito-a, desfolhar-se

em êxtase;

seduzido;

acuado:

entregue

Passo a desequilíbrios

propenso a ingerências

máximo em tordesilhas

criando linhas para derrubar

sucumbo

Sou dela, em pouso, arco, fel e entendimento.

A boca vermelha

Ah, o canto da boca!

Perder estribeiras, recatos, tonteiras

Beijar os mamilos e inteira

Sorver-te

 

Ah, o peito galopa

Tentado e inseguro, manejo e floreio

Deitar-me no colo, descanso e esteio

Silvestre

 

Ah, a boca silente

Não diz nada, mas mesmo assim se sente

A fuga, a busca, um tanto pungente

De se entregar.

Uma página de realismo fantástico #Conto

Acordou à margem do rio e viu borboletas azuis borboleteando por aí. Pensou em como era anacrônico usar na palavra borboletear num século em que não se viam mais borboletas nas cidades. O mais próximo que havia eram aqueles irritantes bichinhos de luz que costumavam aparecer nas noites de agosto em que mudava o tempo. Foi aí, nesse pedaço do seu raciocínio delirante que ela percebeu que até então não tinha dado bola para essa variável no problema: o tempo. Afinal de contas, não é de se esperar que se acordasse ao lado de um rio cheio de borboleteantes borboletas azuis, mas era muito estranho ela não saber há quanto tempo estivera deitada ali, nem porque estava vestida com aquela estranha roupa de três cores feita do mesmo material que, séculos antes, haviam sido construídas as bolas de futebol.

Dando bola para o assunto da bola, a última tendência para o verão seria justamente o começo do século XXI, naquela distante época que ousou convencionar-se como pós-modernidade. Ah, pós-modernidade! Aquele povo era tão cool com seus cabelos esvoaçantes, suas roupas multicoloridas e seus sons que misturavam guitarra elétrica com sintetizadores. Mal sabiam eles que moderno mesmo era fazer música com escalas semitónicas naqueles instrumentos pseudo-mentais inventados pelo dr Machina que faziam com que cada um em um show ouvisse sua própria música, a harmonia de suas próprias sinapses mentais lagarteando em sinestesias tão peculiares que todo indivíduo, envolto em sua própria viagem, era capaz de construir sua própria poesia. E então tudo o mais ficou supérfluo, até porque o suprassumo do individualismo, a própria epítome da edificação de si mesmo havia sido alcançada e o resto – todo ele – virou lembrança para aqueles desocupados que se preocupavam ainda com a ciência.

Ainda se lembrava da emoção que sentira ao ver, numa tela plana – isso mesmo, uma tela plana, sem nenhuma interação! – aos vídeos da final da copa de 2014 quando Argentina e Alemanha se enfrentaram numa mítica partida de futebol no estádio do Maracanã. É claro que hoje tanto Argentina, quanto Alemanha, ainda mais o Maracanã eram ideias tão antigas que ninguém mais conseguia mensurar aquilo direito. Mas a imagem permaneceu, sempre ela. A imagem da emoção daquelas pessoas, parecia ser tão rica e, mais importante ainda o caos de não saber exatamente como cada uma daquelas setenta mil almas estava se sentindo, de ter de imaginar o que todos eles estavam sentindo, sem ter muito conhecimento sobre as reais razões que fizeram gente tão diferente viajar o mundo para estar no mesmo lugar, na mesma hora, vivendo o mesmo momento. Isso era tão… anacrônico.

Voltou para onde estava como se fechasse milhares de janelas de poup-up (ah, isso era do século XX na verdade, mas ali era muito difícil mensurar corretamente as fronteiras entre esses mundos) e olhou para o céu. Púrpura? Desde quando ele tivera essa cor? Desde quando os pássaros voavam de cabeça para baixo e para trás fazendo tudo ao contrário como num moonwalk perpétuo? Desde quando aquele rio teria virado mar e desde quando ela se movia enquanto pensava, batendo asas num borboletear esfuziante? Desde quando ela não era ela? Desde quando o mar começou a cair e as ondas se transformavam em tempestades e relâmpagos revolucionando tudo num esgar infindo? E desde quando o tempo era tempo, a rua era rua e o nada era o nada? Desde que, quebradas as regras de percepção, o sonho e a verdade, sendo um só, eram a medida de todas as coisas.

Púrpura. Começou a ouvir uma canção tão antiga quanto o tempo. E lembrou-se que não havia de ser nada, que daqui a pouco eles chegariam com os remédios e o sol viraria sol e todas as cores seriam exatamente como deveriam ser. Ficou ainda muito tempo olhando os bichinhos de luz acertarem a luminária em sua sala totalmente estofada, enquanto se contorcia em delírios.

 

Um homem muito especial

Daquela vez a dor foi mais pesada do que das últimas. Sentou-se só na banqueta com uma mão no peito e outra no joelho, olhando para a chuva que caía pela janela em gotas grossas e pesadas. Passou a mão na cabeça e deixou cair o chapéu no chão, sentindo o arrastado no peito e a respiração custosa e agoniante. Era sempre assim, nos meses de outubro, a chuva vinha pontual no fim da tarde e molhava tudo. Foi duro, foi muito duro. Deu um gemido fundo, suspirou com toda a força de seus pulmões e finalmente capitulou. Com as mãos muito unidas sobre os olhos, chorou como não fazia há muitos anos. Não soltou um gemido, um vagido que fosse. Apenas deixou as lágrimas correrem sobre a face curtida pelos setenta anos de trabalho diário ao sol. Não havia ninguém ali, ninguém para observar os músculos dos braços retesados, as poucas coisas mal organizadas na estante: o candeeiro, a bíblia, o calendário da caixa econômica, um lápis, dois chifres de boi e um baú puído de madeira e couro. Ninguém que visse a casa simplória, o chão de terra batida, as paredes de pau-a-pique, as janelas de umburana e jacarandá, a rede trançada, o sol que insistia em se misturar com a chuva naquele fim de tarde apoteótico. Ninguém. Uma solidão que era tanto angústia quanto abandono, tanto ilusão quanto desespero. Ninguém para fechar a tramela da janela quando o vento insistiu em fazê-la bater, nem ninguém para acender o candeeiro quando a noite finalmente chegou. E, ocasionalmente, ninguém para consolar o coração daquele velho que passou tantos anos tentando ser forte, pondo-se ilusões de que um dia…

A vida bate forte. Você resiste, uma, duas, várias vezes. Você é orgulhoso, mas ela é insistente. Você se esquiva, ela lhe soca entre as pernas. Você revida, ela machuca seus punhos, ela te derruba, você levanta uma, duas, cem vezes. No fim, ela te pisa no chão, te humilha, te bate mais forte por onde você menos imagina. E aí você percebe que passou a vida inteira lutando, a vida inteira resistindo, a vida inteira fazendo seu destino, construindo sua história, mudando seu caminho para, ao chegar ao final, perceber, impotente, que nada disso significou sequer um epitáfio digno para chamar de seu. Não há glória, não há vitória, não há recompensa, não há discurso, nem há eternidade, reconhecimento, amor: não há nada.

Uma carta repousa no chão ao lado do chapéu. Uma carta colorida, escrita à mão com uma letra caprichada de alguém que estudou no liceu. Não, não eram más notícias que havia. Apenas não eram as notícias certas. Dois noivinhos, um anjinho, alguns nomes escritos e uma data cruel e definitiva: dali a duas semanas, duas almas se unirão em matrimônio sob as bênçãos do Senhor.

Nenhum homem deveria chorar por um amor pelo qual não lutou.