Modiglianesca

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Deitada, arfante e nua

a pele em degredo, multiascendente

falha em dominar-se

pulsa.

 

Eu-lírico

beijo-a

e invento palavras

sinestesias

fissuras

Tomado de experiências

fito-a, desfolhar-se

em êxtase;

seduzido;

acuado:

entregue

Passo a desequilíbrios

propenso a ingerências

máximo em tordesilhas

criando linhas para derrubar

sucumbo

Sou dela, em pouso, arco, fel e entendimento.

A boca vermelha

Ah, o canto da boca!

Perder estribeiras, recatos, tonteiras

Beijar os mamilos e inteira

Sorver-te

 

Ah, o peito galopa

Tentado e inseguro, manejo e floreio

Deitar-me no colo, descanso e esteio

Silvestre

 

Ah, a boca silente

Não diz nada, mas mesmo assim se sente

A fuga, a busca, um tanto pungente

De se entregar.

A moça tatuada

A noite é um suspiro morno quando ela se deita nua, vestida dum véu de estrelas e ansiosa de beijos e gemidos.

A noite é um suspiro breve

Uma busca soberana

Por um prazo

Um ultimato

Um infinito.

A noite é um chão de estrelas, quando ela me toma inteira e me domina.

A noite é um dragão nascente

Uma flor que nasce do colo

Uma epopeia sem guerreiros

E príncipes

A noite é um princípio, quando me tomas e me sorves, me pedes que te dê o que mais precisas.

A noite são as gotas de chuva

Caindo na janela

Enquanto minha mão e a tua

Se entrelaçam, unidas.

A noite é um corpo em dois, fundido-se em sentimentalidades inexplicáveis.

A noite é uma vela tênue

Balançando ao vento

Queimando

Na cor dos seus cabelos

A noite é um desespero, quando me arranhas a pele e me exiges mais.

A noite é um sono lânguido

Enquanto a acalanto

Esperando que no sonho

Você alcance o céu…

A carne trêmula mantêm-se assim por muito tempo após o ato. Respiraram ruidosamente olhando para o teto do quarto e para o relógio da cômoda piscando os segundos. Não houve palavra, ou gesto, ou malícia no ato. Apenas a cópula carnal, animal, irracional, onde carnes, bocas, lábios, salivas e saliências se misturaram antes que houvesse suspiro algum de arrependimento. Não que não tivesse sido planejado. Nas cabeças dos dois, separados, aquele momento foi vivido muitas e muitas vezes antes que se consumasse. Horas e horas solitários imaginando o toque da pele, o sabor da saliva, o momento propício para que os dois pudessem se encontrar e que os corpos se unissem tão juntos como se um fossem. Mas ela pensava que não, que havia de ser um dia após vários encontros e que ele traria flores e que se beijariam muito com os olhos fechados antes que se apagasse a luz e se deitassem sob o edredom. Já ele imaginava aquilo de um jeito tranquilo e intenso, sob uma luz estonteante de um mês de julho. Nenhum dos dois estava preparado para, olhando-se nos olhos e estando muito juntos, jogarem-se um no outro com uma fome que não se sacia, no sofá da sala mesmo, sem cerimônias.

E agora, envergonhados e nus, os olhos dos dois se evitam como se, ao fazerem isto, apagassem também do mundo as peças de roupa espalhadas pelo exíguo apartamento dela, as marcas de dedos e unhas nas costas um do outro e o embaraço de fazer tudo diferente do jeito que se supõe que se faça para começar uma história de amor.