Minha mãe dizia que era um dia estranho como hoje. Em Brasília chovia. Estranho, pois em agosto nunca chove. Fazia frio e ventava muito. Os fios de eletricidade balançavam e as árvores, ainda cheias de folhas mortas, faziam um estranho barulho quando sacudidas pelo vento.
Meu primo mais velho e meu tio estavam aqui. Coitado, meu primo tremia de frio, com as mãozinhas juntas soprava pra aquecer um pouco. Ele tinha cinco anos. Morávamos de aluguel numa casinha simples de dois cômodos num bairro de Ceilândia chamado Guariroba. Éramos pobres, não tinhamos nem geladeira, nem televisão. Meus pais dormiam numa cama muito velha, um colchão cheio de mofo. Meus parentes dormiam no chão.
A casinha não tinha nem forro e o vento úmido trazia gotículas de chuva pra dentro. Mas mesmo assim agradecíamos por ter chuva. Chuva traz vida, esperança. Eu sempre aprendi a rezar pela chuva, que ela nunca falte. Só quem fica meses sem ver o céu escuro sabe do que eu falo.
Meu primo tinha medo dos relâmpagos. Ele se escondia num canto toda vez que via um. Minha mãe já estava com os nove meses de gravidez contados e meu pai já tinha ido duas vezes ao hospital com ela para ver se já era hora. Estavam impacientes. Chovia.
- Estou sentindo uma coisa estranha. – era minha mãe.
- Como assim estranha?
- Eu não sei. Não é frio, não é chuva. É apenas algo estranho.
Meu pai acendeu um cigarro. Estava nervoso. E agora, o que seria? Um menino é sempre uma dádiva, mas estava sem um bom emprego, gastava 2/3 do salário só para pagar o aluguel. O pior é que ele também estava com essa sensação. Algo estranho, como se a goela fosse apertada, como se doesse no peito.
- Vamos para o hospital.
- Mas eu não tenho dilatação, não sinto dor nem nada!
- Vamos mesmo assim.
Não houve espaço para discussão. Meu pai foi até o vizinho, que morava ao lado de um beco e pediu para ele trazer um táxi. Claro, não tínhamos telefone.
Ele trouxe, era um opala branco, bonito. Meu pai tinha 24 anos.
- É menino? – era o taxista.
- O médico disse que é. – como sempre, meu pai lacônico. Minha mãe começou a chorar.
Falou de um pesadelo que ela teve, de que eu ia nascer com três braços e que ninguém ia ter coragem de me carregar no colo. Meu pai, um poço de candura, não disse nada. Talvez tivesse tido o mesmo sonho. Estavam nervosos. Pelo menos o hospital era perto.
Chegamos.
- Não quero dinheiro. Guarde, você pode precisar dele.
- Eu faço questão. Fomos lá incomodar o senhor.
- Será o primeiro presente do moleque. Gente pobre tem de se ajudar.
E o taxista foi embora. Claro, meu pai pagou-o depois.
O hospital estava cheio, crianças chorando, gente com as pernas enfaixadas, etc. Era novinho, inaugurado há poucos anos. Esperamos duas horas até sermos atendidos.
- Ela não tem dilatação, voltem para casa. – a enfermeira veio atender.
Meu pai respirou fundo, cerrou os punhos, deu um sorriso e meteu um murro na mesa do hospital.
- Só saio daqui com meu filho. – a voz calma de quem está prestes a cometer um homicídio.
- O senhor não entende…
- Entendo sim, senhora. Os nove meses já passaram, já viemos aqui duas vezes. Isto não está certo, é hora do menino nascer. Ou vocês fazem o parto ou eu vou na televisão e só paro quando essa corja toda estiver na cadeia.
Meu pai nunca foi um homem de deixar escolhas. Sem saber, ele tinha acabado de salvar minha vida.
O médico veio. Escutou o coração da minha mãe, mediu a pressão. Depois colocou o estetoscópio na barriga. Era um senhor careca, com cabelos grisalhos dos lados. Fumava, mesmo dentro do hospital. A expressão séria, compenetrada.
- É preciso fazer o parto, agora.
Minha mãe, assustada, começou a chorar de novo. Os médicos levaram-na correndo para a mesa de cirurgia. Eu ia nascer na marra.
Tensão. A equipe fazia a cesariana com pressa, mas todo o cuidado do mundo. Só quem vai em hospital público sabe o que eu estou falando. Eles parecem ser tão competentes, sérios.
E eu nasci no começo da noite. Era um garoto grande (4,5kg) com espesso cabelo crespo. O médico que me tirou deu a famosa palmada no bumbum. Nada. Outra vez. Nada. Abriu minha boca com os dedos, observou dentro. Outro tapa. Nada. Correu comigo desesperado, pelos corredores do hospital. Minha mãe chorava, ela queria pelo menos me segurar no colo.
Foram dois minutos. Uma equipe de enfermeiros ao lado do médico já ia preparando todos os apetrechos. Me colocaram sobre uma mesa.
- Pulso?
- Fraco.
Começou a massagem cardíaca.
- Pulso?
- Nada.
- Respiração?
- Nada.
- Vamos, moleque, agora é contigo.
A massagem continuava.
- Vamos, garoto, ajuda a gente.
Nada.
O médico suava. A equipe de enfermeiros tensa. A esperança já estava se esvaindo quando chorei. Eu tinha nascido morto, fiquei morto quinze minutos e, surpreendentemente, tinha voltado à vida. Mas, afinal, esse não é o sentido de viver? Ressuscitar a cada dia?
***
Na sala de espera todos estavam angustiados. Quando o médico veio e disse que eu estava vivo, foi recebido com êxtase. Tinha vindo gente de várias partes de Goiás, de Brasília, um monte de parentes e amigos. Apesar de dar boas notícias, o médico continuava sério. Chamou meu pai para um canto e explicou melhor a situação. Eu tinha ficado muito tempo sem respirar e poderia ter acontecido alguma coisa. Eles fizeram todos os testes neurológicos e clínicos e perceberam que havia um problema. Eu era cego.
***
Meu pai pediu pra me ver. O médico tentou dissuadi-lo, disse que eu estava na UTI e não era uma boa idéia, mas meu pai nunca foi um homem de deixar escolhas. Vestiu a roupa própria e foi me ver.
Eu estava dentro da incubadora. Tinham raspado os lados da minha cabeça para colocar o soro. Portanto, eu era um garoto com cabelo moicano. Deve ser por isso que virei punk anos depois (hehehe). Meu pai me viu e caiu no riso.
- Tá vendo, doutor o tamanho do saco dele? E é roxo! Meu garoto!
O doutor sorriu. Era 1984.
***
E no hospital vieram vários presentes. Éramos pobres, mas só quem é pobre sabe como somos solidários. As pessoas que moravam por perto faziam questão de trazer o que eles tinham de melhor pra dividir com a gente. Meu pai ficava emocionado com cada pequena coisa. Não era pessoa de externar, meu pai.
Minha mãe se recuperou rápido da cirurgia. Estava ansiosa por me ver, me ter nos braços. Quando finalmente fui, no segundo dia, ela ficou visivelmente emocionada. Eu não sei, não entendo disso, mas deve ser muito bom dar de mamar pro seu próprio filho, sentir na pele, tocar.
Mas eu ainda estava cego.
***
Nessa época meu pai aprendeu a rezar. Ia à igreja todos os dias, principalmente para agradecer por mim. Esse negócio de paternidade deve deixar as pessoas sensíveis. Sem falar que eu era o primeiro, então tinha essa sensação de novidade. E rezava para que eu não ficasse cego.
A idéia foi da minha tinha. Ela morava numa cidade chamada Luziânia, que fica perto do DF. Ela tem esse nome em homenagem a Santa Luzia, que é a protetora da visão. Dizem que ela era uma mulher muito bonita e que um homem rico e influente queria desposá-la por causa de seus bonitos olhos. Como ela queria ir para o convento, casar não era lá uma boa idéia. Então, o que ela fez? Vazou os próprios olhos e deu pro cara… O milagre foi que, dias depois, nasceram novos olhos.
Minha tia foi até a igreja de Santa Luzia, benzeu uma imagem pequeninha e colocou na minha fralda.
Dois dias depois, brincando comigo no quarto do hospital, minha mãe percebeu que eu olhava fixamente para os dedos dela. Ela mexia a mão e eu acompanhava. Ela tremia, começou a gritar no meio do hospital. Eu não era mais cego, era um milagre. O segundo.
E foi assim, depois de todas essas aventuras que eu finalmente voltei pra casa e ali vivi os meus primeiros anos. Claro, não tenho lembranças dessa época, apenas estou repetindo o que outras pessoas me disseram, mas tem algo de bom em recuperar a própria história. Pelo menos nessas datas, 25 anos depois.