20 Outubro, 2009

Guajará

Guajará…

Tupinambá…

Céu azul

No Pará

Guajará

Quem vai me domar

Guajará

Belém, América do Sul

Guajará

Quem me viu, quem me vê, quem quer ser meu amor?

Quem te vê?

Mas a terra do sol não se incitou

Quem te vê?

Meu amor não é mais do que a pedra de urucum

Tacacá

O Pará dominará o vermelho e o azul

Coração

Quem me quer, quem me quer, quem me ver me verá

Nascerá na virtude o reflexo

Anverso do açaí

Manacá

Maniçoba, pato ao tucupi

É canção

É o teatro da paz

É mangueira

É carnaval

É carnaval

É carnaval

Canavial

É emoção

É o amor em Belém do Pará

É solidão

Quem meu quer, quem me quer, vai ter de me ouvir

É meu fim

Gaivotas na praia querendo subir

Cada vez mais

É a paz, é a paz, é Fafá cantando pra mim

É ainda mais

Bem mais perto, mais perto de mim

É Guajará

Quem quiser

É guaraná

É céu azul

É estrela, é Paysandu

Remo pra lá

Vou te levar

Vou te levar

Vou te levar

Pro ar…

26 Setembro, 2009

Um poema pra JuJu

Sente
A mão, o lábio
O dedo, o pulso
O poema corre fácil
Magro, mirrado, sussurado
Poema-vagido
Construindo a canção,
Poema-língua
Atravessando os mares
Comungando com os povos
Contemplando o mundo
Voando aqui e ali pelo ar.
Sente
É a mão errante
Conduzindo a arte
Modificando a parte
Sacudindo tudo
É o poema indo, telegrafando
Sinais de fumaça
Telemetria de submundo,
Subúrbio
Suborno
Surpresa
É o poema sem pressa
Sem graça
Sem hora
Sem nada
É o poema sem hora
Simplório.
Sente?
A mágica torta
Envolvendo a gente
A falta de lógica
Chega de repente
A mão suada
Vira repelente
Entorta, confronta
Revigora, satisfaz
Calça as botas
Se liquefaz
Desmancha-se no ar
Que há de sólido neste marxismo?
A guerra-fria, os paroxismos
Moldam-se em ferro, fogo, água e cal.
Não, não me toques!
A face augusta inflama o olhar
A mãe dormente recomeça a dança
Magma, dólmen, infantaria, inconstância
Veja como é lindo meu olhar?
Vai, frio
Derrama-te dos céus
Risca aqui o fosso
Lábios feitos de mel
Cobrem-se agora da fuligem de verões passados
Sou carne, sou osso
Sou fera apátrida remoendo os dentes
Sou eu o poeta para o teu deleite
Distante, descambo-me para o céu de Orfeu
Eu sou lágrima
Sou flauta doce
Sangue bravo de vitórias
Pele livre de bravatas
Poço estranho, coberto de flores
Mas então,
Poema-lógica
Sinapses intumescidas
Construindo sinestesias
Alcançando notas tais que não se ouvem…
Ei-lo, partido, partindo, se foi…

Sente

A mão, o lábio

O dedo, o pulso

O poema corre fácil

Magro, mirrado, sussurado

Poema-vagido

Construindo a canção,

Poema-língua

Atravessando os mares

Comungando com os povos

Contemplando o mundo

Voando aqui e ali pelo ar.

Sente

É a mão errante

Conduzindo a arte

Modificando a parte

Sacudindo tudo

É o poema indo, telegrafando

Sinais de fumaça

Telemetria de submundo,

Subúrbio

Suborno

Surpresa

É o poema sem pressa

Sem graça

Sem hora

Sem nada

É o poema sem hora

Simplório.

Sente?

A mágica torta

Envolvendo a gente

A falta de lógica

Chega de repente

A mão suada

Vira repelente

Entorta, confronta

Revigora, satisfaz

Calça as botas

Se liquefaz

Desmancha-se no ar

Que há de sólido neste marxismo?

A guerra-fria, os paroxismos

Moldam-se em ferro, fogo, água e cal.

Não, não me toques!

A face augusta inflama o olhar

A mãe dormente recomeça a dança

Magma, dólmen, infantaria, inconstância

Veja como é lindo meu olhar?

Vai, frio

Derrama-te dos céus

Risca aqui o fosso

Lábios feitos de mel

Cobrem-se agora da fuligem de verões passados

Sou carne, sou osso

Sou fera apátrida remoendo os dentes

Sou eu o poeta para o teu deleite

Distante, descambo-me para o céu de Orfeu

Eu sou lágrima

Sou flauta doce

Sangue bravo de vitórias

Pele livre de bravatas

Poço estranho, coberto de flores

Mas então,

Poema-lógica

Sinapses intumescidas

Construindo sinestesias

Alcançando notas tais que não se ouvem…

Ei-lo, partido, partindo, se foi…

19 Setembro, 2009

Pra não dizer que não falei de flores

Prólogo

Arauto

Vós que amais de olhos fechados

Ouvi-me!

É cedo

E a noite ainda dorme.

Filhos amados

Permitam-se

O sono dos justos já não revigora

E a amor não balança os corações.

Ouvi-me, justos!

O grito dos ímpios me atrapalha!

É preciso ver surgir na Terra outro dia

Colorido com flores dos jardins!

Ouvi-me justos, ouvi-me!

Já não há flores, nem quintais!

[Tocam trombetas]

Fada

Nem que eu precise mais canção!

Dormem na noite os justos

E descansa na pele o regaço

Lutam contra o destino imundo

Façam o mesmo que faço!

Brilhem! Iluminem a noite com o lume!

Façam da poesia a música alegre!

Anjos do céu! Venham comigo!

Filhos da Terra, toquem o sino!

Homens! Homens! É chegada a hora!

Nem medo, nem frio, nem degola!

Sigam o sonho, cantem o hino

Acompanhem de perto as trombetas

[novamente as trombetas]

Arauto

Homens, anões e duendes!

Pássaros, flautas, estrelas cadentes!

Flores, regatos e pântanos!

Mares, céu e vento!

Caminhai, caminhai!

É chegada a hora!

Quebrem-se os muralhas

Abram-se as portas da percepção

Destituam-se os generais

Percam-se os exércitos da Terra

É chegada a hora, é chegada a hora!

Viscondes, duques, marqueses

Proletários, vagabundos, burgueses

Eis o hino! Eis o hino!

Vícios mortais, eis que vem

Ao longe os Neandertais!

Fada

Europa! Europa!

Traga a primavera!

O fogo toma o céu!

Fervei, fervei, navegai!

Filhos da corrupção, tremei!

De longe os alquimistas!

Eis que vem o sol

Dourando a pele dos bárbaros

Arauto

Cantai, ó justos, às vilanias do mundo

Cantai, antes do cadafalso dos tiranos

Cantai

Coro

Respirar o ar

Respirar

Respirar o ar

Respirar

Fada

A canção nos toma

Coro

Respirar o ar

Respirar

Respirar o ar

Respirar

Arauto

Navegar

Navegar!

Todos

É o tempo!

É o tempo!

É o tempo!

É o sol!

[fecham-se as cortinas]

Cena 1

[casa de Casíodo]

Casíodo

Quem for me ver

Me envenenar

Ou me ensinar

A ver o céu azul

Quem for me ver

Envenenar

Saciar

A flor e o barril

Quem for me ver

Envenenar.

Caminham as aves

Mostram os caminhos ao sol

Voam as formigas

Arrastam-se os jacarés!

Quem me ver

Quem me ver

Quem me ver

Já é.

[entra Helena]

Helena

Caminham as formigas

Voam as aves

Nadam os jacarés

Casíodo

Quem se importa?

Helena

E as trombetas?

Casíodo

É o fim!

Vida longa à iniquidade!

Helena

Somos pecadores, Casíodo.

Tenho medo!

Casíodo

Somos reis entre os homens!

Nada nos atinge

Íntegros dirigentes dos destinos

Sou rei!

Que me importa?

Não há pedras suficientes

Para limpar da Terra todos os pecados

Acabou a noite, raiou o dia

Mudou a rota

Ficou o tempo

Não há canção, nem sino ou trombeta

Ficou a majestade,

A glória.

[ouvem-se gritos]

Helena

São gritos que ouço?

É o vento que traz

Ó, destino traçado!

Ó, peito ferido!

É a morte que chega de longe

Atracada em nosso cais!

Coro

Marchai! Marchai!

Avante! Marchai!

É nosso o tempo, é nosso!

Decidamos assim os nossos ideais!

[o povo chega com tochas, paus e pedaços de madeira. Casíodo ergue a espada]

Casíodo

Marginais! Tremei

Como ousai desafiar vosso rei?

Coro

São as flores vencendo o canhão!

Seguir, seguir a canção!

Casíodo

O que há?

[o arauto desce das nuvens]

Arauto

Flagelo das dores é findo!

É hora de trocar a labuta

É tempo, chegado o tempo

Mudando decerto a conduta

É tempo, não percam o tempo

É hora de cair em luta

[Chegam os soldados]

Soldados [em coro]

O soldado não tem medo

Obedece sem razão

Não tem nada na cabeça

Nem direito a oração

O soldado obedece

Não se aprende na escola

Não tem dia, não tem hora

Casíodo [aos soldados]

Matem todos!

Coro [tocando apitos]

Não há morte!

Só há o destino

Não há medo

Segui o caminho

Não há sol só há o tempo

Os alquimistas voam no vento

[Do meio do coro sai o alquimista]

Alquimista

Trotes do mal não adiantam

Não há medo

Só a canção

Não há medo

Só, a canção!

Bradem meus amigos

Bradem

O céu nos escuta

É hora de fazer justiça

É hora de mudar a história

Vilipendiados somos

Mas o amor nos une

É a pele, é a pena, é a mão

Caminhando e seguindo a canção

Sigam o arauto do céu

Helena [de joelhos]

A flor me invadiu

Não vou resistir

Erguei, erguei os canecos

Não há, não há mistério

Não há, não há solidão!

Coro

Salve regina

Madre regina

[teu magno e distinto coração

tua boca de amor e justiça

teu colo que descansa nossa língua

tua pele que transborda a loucura

madre nossa, madre

teu sol é nossa justiça

teus versos são nossa canção]*em latim

Arauto

Os anjos cantam por vossa boca

Helena

De que servem os anjos agora?

Coro

Avante soldados!

Avante!

É hora de seguir o destino

Casíodo

Não há destino, apenas a glória

Coro

Não há glória apenas a canção

Alquimista

Não há angústia, a dor já termina

Helena

É o amor que nos move agora!

Coro

As flores nos ouvem as flores

Acabaram-se todos terrores

Ficou apenas canção, canção!

[ouve-se um relâmpago. Todos balançam pelo vento]

Arauto

É hora de irmos pro céu!

É hora de virem as nuvens!

Adeus mundo, adeus

Alquimista

É a eternidade. É a eternidade

Navegar, navegar

Mudar o mundo

Navegar pelas nuvens.

É outra depressão

Uma nova invasão na cidade

É outra depressão

Nossos sonhos dobraram a metade

É outra depressão

Acabou o silêncio, ficou a verdade

Coro

Venham as nuvens, ei-nos canção

Deixemos a glória de lado

As flores nos vencem as flores

Quebram-se os grilhões do pecado….

24 Agosto, 2009

Foi Há 25 Anos

Minha mãe dizia que era um dia estranho como hoje. Em Brasília chovia. Estranho, pois em agosto nunca chove. Fazia frio e ventava muito. Os fios de eletricidade balançavam e as árvores, ainda cheias de folhas mortas, faziam um estranho barulho quando sacudidas pelo vento.

Meu primo mais velho e meu tio estavam aqui. Coitado, meu primo tremia de frio, com as mãozinhas juntas soprava pra aquecer um pouco. Ele tinha cinco anos. Morávamos de aluguel numa casinha simples de dois cômodos num bairro de Ceilândia chamado Guariroba. Éramos pobres, não tinhamos nem geladeira, nem televisão.  Meus pais dormiam numa cama muito velha, um colchão cheio de mofo. Meus parentes dormiam no chão.

A casinha não tinha nem forro e o vento úmido trazia gotículas de chuva pra dentro. Mas mesmo assim agradecíamos por ter chuva. Chuva traz vida, esperança. Eu sempre aprendi a rezar pela chuva, que ela nunca falte. Só quem fica meses sem ver o céu escuro sabe do que eu falo.

Meu primo tinha medo dos relâmpagos. Ele se escondia num canto toda vez que via um. Minha mãe já estava com os nove meses de gravidez contados e meu pai já tinha ido duas vezes ao hospital com ela para ver se já era hora. Estavam impacientes. Chovia.

- Estou sentindo uma coisa estranha. – era minha mãe.

- Como assim estranha?

- Eu não sei. Não é frio, não é chuva. É apenas algo estranho.

Meu pai acendeu um cigarro. Estava nervoso. E agora, o que seria? Um menino é sempre uma dádiva, mas estava sem um bom emprego, gastava 2/3 do salário só para pagar o aluguel. O pior é que ele também estava com essa sensação. Algo estranho, como se a goela fosse apertada, como se doesse no peito.

- Vamos para o hospital.

- Mas eu não tenho dilatação, não sinto dor nem nada!

- Vamos mesmo assim.

Não houve espaço para discussão. Meu pai foi até o vizinho, que morava ao lado de um beco e pediu para ele trazer um táxi. Claro, não tínhamos telefone.

Ele trouxe, era um opala branco, bonito. Meu pai tinha 24 anos.

- É menino? – era o taxista.

- O médico disse que é. – como sempre, meu pai lacônico. Minha mãe começou a chorar.

Falou de um pesadelo que ela teve, de que eu ia nascer com três braços e que ninguém ia ter coragem de me carregar no colo. Meu pai, um poço de candura, não disse nada. Talvez tivesse tido o mesmo sonho. Estavam nervosos. Pelo menos o hospital era perto.

Chegamos.

- Não quero dinheiro. Guarde, você pode precisar dele.

- Eu faço questão. Fomos lá incomodar o senhor.

- Será o primeiro presente do moleque. Gente pobre tem de se ajudar.

E o taxista foi embora. Claro, meu pai pagou-o depois.

O hospital estava cheio, crianças chorando, gente com as pernas enfaixadas, etc. Era novinho, inaugurado há poucos anos. Esperamos duas horas até sermos atendidos.

- Ela não tem dilatação, voltem para casa. – a enfermeira veio atender.

Meu pai respirou fundo, cerrou os punhos, deu um sorriso e meteu um murro na mesa do hospital.

- Só saio daqui com meu filho. – a voz calma de quem está prestes a cometer um homicídio.

- O senhor não entende…

- Entendo sim, senhora. Os nove meses já passaram, já viemos aqui duas vezes. Isto não está certo, é hora do menino nascer. Ou vocês fazem o parto ou eu vou na televisão e só paro quando essa corja toda estiver na cadeia.

Meu pai nunca foi um homem de deixar escolhas. Sem saber, ele tinha acabado de salvar minha vida.

O médico veio. Escutou o coração da minha mãe, mediu a pressão. Depois colocou o estetoscópio na barriga. Era um senhor careca, com cabelos grisalhos dos lados. Fumava, mesmo dentro do hospital. A expressão séria, compenetrada.

- É preciso fazer o parto, agora.

Minha mãe, assustada, começou a chorar de novo. Os médicos levaram-na correndo para a mesa de cirurgia. Eu ia nascer na marra.

Tensão. A equipe fazia a cesariana com pressa, mas todo o cuidado do mundo. Só quem vai em hospital público sabe o que eu estou falando. Eles parecem ser tão competentes, sérios.

E eu nasci no começo da noite. Era um garoto grande (4,5kg) com espesso cabelo crespo. O médico que me tirou deu a famosa palmada no bumbum. Nada. Outra vez. Nada. Abriu minha boca com os dedos, observou dentro. Outro tapa. Nada. Correu comigo desesperado, pelos corredores do hospital. Minha mãe chorava, ela queria pelo menos me segurar no colo.

Foram dois minutos. Uma equipe de enfermeiros ao lado do médico já ia preparando todos os apetrechos. Me colocaram sobre uma mesa.

- Pulso?

- Fraco.

Começou a massagem cardíaca.

- Pulso?

- Nada.

- Respiração?

- Nada.

- Vamos, moleque, agora é contigo.

A massagem continuava.

- Vamos, garoto, ajuda a gente.

Nada.

O médico suava. A equipe de enfermeiros tensa. A esperança já estava se esvaindo quando chorei. Eu tinha nascido morto, fiquei morto quinze minutos e, surpreendentemente, tinha voltado à vida. Mas, afinal, esse não é o sentido de viver? Ressuscitar a cada dia?

***

Na sala de espera todos estavam angustiados. Quando o médico veio e disse que eu estava vivo, foi recebido com êxtase. Tinha vindo gente de várias partes de Goiás, de Brasília, um monte de parentes e amigos. Apesar de dar boas notícias, o médico continuava sério. Chamou meu pai para um canto e explicou melhor a situação. Eu tinha ficado muito tempo sem respirar e poderia ter acontecido alguma coisa. Eles fizeram todos os testes neurológicos e clínicos e perceberam que havia um problema. Eu era cego.

***

Meu pai pediu pra me ver. O médico tentou dissuadi-lo, disse que eu estava na UTI e não era uma boa idéia, mas meu pai nunca foi um homem de deixar escolhas. Vestiu a roupa própria e foi me ver.

Eu estava dentro da incubadora. Tinham raspado os lados da minha cabeça para colocar o soro. Portanto, eu era um garoto com cabelo moicano. Deve ser por isso que virei punk anos depois (hehehe). Meu pai me viu e caiu no riso.

- Tá vendo, doutor o tamanho do saco dele? E é roxo! Meu garoto!

O doutor sorriu. Era 1984.

***

E no hospital vieram vários presentes. Éramos pobres, mas só quem é pobre sabe como somos solidários. As pessoas que moravam por perto faziam questão de trazer o que eles tinham de melhor pra dividir com a gente. Meu pai ficava emocionado com cada pequena coisa. Não era pessoa de externar, meu pai.

Minha mãe se recuperou rápido da cirurgia. Estava ansiosa por me ver, me ter nos braços. Quando finalmente fui, no segundo dia, ela ficou visivelmente emocionada. Eu não sei, não entendo disso, mas deve ser muito bom dar de mamar pro seu próprio filho, sentir na pele, tocar.

Mas eu ainda estava cego.

***

Nessa época meu pai aprendeu a rezar. Ia à igreja todos os dias, principalmente para agradecer por mim. Esse negócio de paternidade deve deixar as pessoas sensíveis. Sem falar que eu era o primeiro, então tinha essa sensação de novidade. E rezava para que eu não ficasse cego.

A idéia foi da minha tinha. Ela morava numa cidade chamada Luziânia, que fica perto do DF. Ela tem esse nome em homenagem a Santa Luzia, que é a protetora da visão. Dizem que ela era uma mulher muito bonita e que um homem rico e influente queria desposá-la por causa de seus bonitos olhos. Como ela queria ir para o convento, casar não era lá uma boa idéia. Então, o que ela fez? Vazou os próprios olhos e deu pro cara… O milagre foi que, dias depois, nasceram novos olhos.

Minha tia foi até a igreja de Santa Luzia, benzeu uma imagem pequeninha e colocou na minha fralda.

Dois dias depois, brincando comigo no quarto do hospital, minha mãe percebeu que eu olhava fixamente para os dedos dela. Ela mexia a mão e eu acompanhava. Ela tremia, começou a gritar no meio do hospital. Eu não era mais cego, era um milagre. O segundo.

E foi assim, depois de todas essas aventuras que eu finalmente voltei pra casa e ali vivi os meus primeiros anos. Claro, não tenho lembranças dessa época, apenas estou repetindo o que outras pessoas me disseram, mas tem algo de bom em recuperar a própria história. Pelo menos nessas datas, 25 anos depois.

6 Junho, 2009

Fim

Este blogue acabou.

Agradećo a todos pela companhia nestes anos, mas não dá mais pra continuar. Ainda tentei um último esforćo, mas cheguei à conclusão de que nunca serei tão bom quanto eu gostaria.

Obrigado pelo carinho, pelos comentários, pelos conselhos e todas as coisas boas que vcs me trouxeram. De verdade, foi muito bom.

Mas tudo acaba.

E este acabou.

Abraćos e até a eternidade.

5 Junho, 2009

Elogio às Flores

Não ligo.

Traio meus próprios intentos

Vario soluções e momentos

Catalismo minha álgebra,

Sussurro a cor sonâmbula e ilógica,

Planto-me em vasos e me rego.

.

Recuso-me a contrariedades

Sou a expressão cruel da verdade

Verde, lilás, anil, fúcsia

Rosa, margarida, dedo-de-moça

Cravo, crisântemo, ametista;

Que flor seja:

Brilho com meu brilho,

Pinto o mundo

Perfumo.

.

E que me vale a solidão?

Maquio-me de cores várias

Estou nas ruas, estradas, países

Faço pessoas felizes

Nos cantos por onde passo.

Sou a cor do mundo.

.

Sonho sim! Claro que sonho.

Sonho que serei eu a acabar as guerras

Acalentar todas as ruas das cidades

Surrupiar do mundo as misérias

Abrigar sobre mim as mazelas esquecidas

Dar de comer às almas sedentas do pobres.

Sonho ser a revolução silenciosa:

Sem sangue

Sem canhão

Sem lágrima

Sem dor,

Sem heróis.

Sonho ser o símbolo do tempo novo.

.

Mas existo.

Em cada parte, pinto

De Monet a Mondrian

De Poncelet a Ives Saint Laurent

Brasília, Rocinha, Amsterdã

França, Londres, Paris, Pontisan:

Florianópolis.

Existo para o encanto:

Estou na tango, na boca

Na língua, em tantas que me perco

No peito vazio das prostitutas

Nas mãos dos boxeadores após as lutas

Na alegria, no amor, na vaidade,

Nos cetros dos reis, nas vielas das cidades

Nas mãos lambuzadas dos amantes

No veio da terra lamacenta

Na rua, no filme de 40

Na garganta enevoada dos neandertais.

.

Sim, quero invadir todos os lugares

Quero perceber todas as verdades

Quero possuir todas as bocas

Todos os lábios, estar em todos os orgasmos

Colorir todas as despedidas.

Quero estar no mar, com Iemanjá

Estar no Japão, com Gautama,

No olimpo, ao lado de todos os deuses

Com Baco nas orgias.

Sim, também quero vinho,

Quero me embebedar de virtude

Quero me entupir de poesia

Quero chorar de nostalgia

Quero lembrar, quero esquecer

Quero voar com os paraquedistas

Pousar nas luas-de-mel

Andar nos cabelos das meninas

Nas mãos suadas dos rapazes

Nervosos no começo da vida.

Quero a paz sem fronteiras

A alegria verdadeira

A liberdade perfeita,

Onde todos sejam, não pareçam.

.

E quando pousares moribundo

Na tua última viagem

Lá estarei de braços abertos

Para levar-te à eternidade

29 Maio, 2009

Elogio da Verdade

A verdade
incomoda
clarifica
isola
Vivo em verdade
mas cercado da mentira
coagido
solitário
Mas vivo em luta
porque conhećo o céu de ilusão sem nuvens
as manifestaćões vis e incólumes do bem
as lágrimas
rotas
e tristes
dos amores que deixei.
Vivo
Incessantemente vivo
E me afundo em simplificaćões
Escolho a poesia
enquanto o outro escolhe a negaćão.
Escolho pois, a vida
Contra as facas indignas da obliquidade
escolho a liberdade de dizer o que penso
enquanto os outros preferem repeteir
repetir
repetir
Não bajulo ninguém
Nem abaixo a cabeća.
Amo os outros mais do que a mim mesmo
Mas nesse amor não há troca
não há dúvidas
é um amor unidirecional.
Sofro
às vezes sofro
Mas todo sofrimento vertido no nome da verdade
contamina de verdade a face escura do mundo
Sofro
Pois meus sofrimento é luz na escuridão
que guia os passos contra o vazio.
Sofro
Sofro de amores platônicos, sofro.
Mas sofro infame e sedento

Sofro de paixao absurda

Escancarada

vil e intermitente.

Sofro de verdade

Pela verdade.

23 Maio, 2009

Pontisan

Do quê eu tinha medo

Do quê eu tinha medo? Afinal de contas, já estava acostumado com aquilo. Quanto tempo? As coisas pareciam bem confusas agora. Era um bom soldado, sabia. Todos com quem tinha lutado sabiam. Lutei com bravura em Chiloés, Monitaga e Pontizan. Nessa última, resisti a um cerco de dois dias das tropas de Filinto Chinaglia, entrincheirado num antigo sanatório. Dois dias sem dormir, resistindo bravamente, com pouca munição e muita coragem. Quem estava comigo naquele cerco? Ah! lembrei: Valentino, Cardabal, Huritaga, Plonchet, Jonesy e o capitão Tornedor. Valentino era o melhor de todos, um grande soldado, de muita coragem. Quando Tornedor pediu um voluntário para se esgueirar no meio da noite e colocar cargas de dinamite nas trincheiras dos fascistas ele se ofereceu. Arrastou-se no chão coberto de neve naquela noite de março e plantou as bombas no local exato. Não tínhamos como protegê-lo. Depois que ele passasse pelo muro baixo que limitava o sanatório ele estaria só por si.

Silêncio na noite. Estávamos temerosos que algo desse errado. Silêncio demais é sinal de mau-agouro. Jonesy rezava baixinho. Ele era um inglês negro, forte como um gorila. Mas também era medroso como um menino. Na noite anterior eu estava com ele fazendo guarda quando o ataque dos fascistas começou. O sanatório era uma frente avançada muito importante para que o exército internacional continuasse ocupando Pontisan. Ele atirava e tremia como um menino. Parecia meio idiota o Jonesy. Mas era o idiota mais forte do mundo. A entrada do prédio veio abaixo e eu podia ouvir os gritos de meus amigos que tinham sido pegos de surpresa, dormindo.

E ele rezava baixinho. Tirando isso era só o silêncio. Valentino estava demorando demais, mas era preciso ter muito cuidado. Os fascistas estavam muito quietos. Nós estávamos no segundo andar, parcialmente destruído, observando toda a movimentação. Cardabal, o espanhol com cara de índio e olhar de maníaco trouxe a metralhadora. Tínhamos apenas dois pentes. Era uma última tentativa desesperada de furar o cerco.

Eu não gostava do Cardabal. Uma vez tinha visto ele cegar um soldado fascista só por maldade. Ele sorria enquanto usava seu canivete para vazar os dois olhos do pobre rapaz. Devia ter menos de vinte anos o fascista. Guerra dos infernos. Eu não ia perder a oportunidade de matar o desgraçado do Cardabal.

Pontisan era uma cidade em escombros. Havia sido bombardeada várias vezes nos últimos meses. Eu não entedia ainda porque algumas pessoas insitiam em morar naquela cidade-fantasma. Mulheres magras, homens tristes, principalmente velhos. Mas para onde eles iriam? Aquilo era a guerra, eu não poderia pensar que Pontisan era diferente de outras cidades européias naquela guerra absurda. Pontisan era só um nome no mapa. Um lugar a ser ocupado, nada mais.

Não era tempo de me concentrar nisso. Tinha de prestar atenção no meu trabalho. Cardabal e Pontisan que fossem pro inferno. Estava frio e Valentino era um italianinho valente. Entrou na guerra com dezesseis anos quando os fascistas mataram a família dele, deixando-o sozinho. Agora, aos dezenove, era um dos sargentos mais amados daquela divisão. Dizem que até o general Funchal já soubera dos feitos dele. Ele já tinha saltado o muro e estava no território inimigo.

Eu tremia de frio. Lembrei de minha família na Paraíba. Porquê ele tinha entrado nessa guerra? Estava estudando em Madrid, podia ter voltado ao Brasil e esquecido tudo aquilo. Aquela guerra não era sua, aqueles mortos não eram seus. Agora estava ali, a milhares de quilômetros de casa, no meio do frio e torcendo por um italiano que tinha idade para ser… Ah, foda-se. “Você sabe que gosta disso, desgraçado, está no seu sangue. Lembra de como seu tio sangrou aquele cabra? Você teve orgulho dele, era o certo a fazer. E você está fazendo a coisa certa aqui também. Você sabe o que significa o fascismo. Você sabe que o mundo que você ama não pode sobreviver no fascismo”.

Eu queria rezar. Queria ser como o Jonesy e rezar. Lembro de como Deus era bom para mim na Paraíba. Lembro de como minha mãe acreditava muito em Deus. Mas era melhor não. Que direito tinha eu de pedir alguma coisa a Ele no meio daquela guerra absurda. Não. Nenhum direito. Nada de rezar. Mas era bom ouvir Jonesy rezando em inglês.

Do outro lado ele podia ver o tenente Plonchet. Era francês e ateu. Vinha de uma família muito rica de judeus franceses. Era já grisalho. Dava aulas em Sorbonne antes da guerra. Diplomacia. “Ah! Senhor Plonchet! Do que serviu nossa diplomacia depois que Hitler atravessou a linha Magnot? Que se fodam todos os malditos burocratas! Que se foda a estupidez. Que se foda a guerra”.

Mas a quem eu queria enganar? Eu gostava da guerra. Eu gosto da guerra. É no meio do front, entre as descargas de artilharia pesada que você podia ver um homem como ele realmente é. Eu não podia mais viver sem a guerra. Era meu sangue o mesmo sangue dos que eu matava. No meio do campo de batalha todos os mortos são iguais: judeus, negros, brasileiros, italianos.

E eu torcia pelo Valentino. Aquele italianinho era dos meus. Daria um ótimo paraibano, um cabra valente, daqueles que carregam a faca nos dentes e não tem medo de nada.

Mas o mais estranho era o Huritaga. O japonesinho mal sabia falar o italiano e estava lutando contra o seu próprio país. Eu não entendia o Huritaga, ainda mais sabendo o que os japoneses estavam fazendo na guerra do Pacífico. Ele dizia que lutou na Manchúria e só viu desonra. “Ah, quanto honra! Defender Pontisan, aquela cidade fantasma no meio de um sanatório abandonado. Sim! Um sanatório. Estávamos todos loucos. E viva a loucura, viva a ignorância, viva a guerra”. E eu nem sei onde fica a Manchúria. Huritaga matava calado. Eu não gosto de quem mata calado. Mas com o Huritaga era diferente. Eu confiava no japonesinho. Não era como o Cardabal. Huritaga matava metodicamente, por obrigação. Cardabal machucava por prazer. Gostava de ver o sofrimento. “Não, eu não posso perder a chance de matar o Cardabal”. Será que o capitão Ternedor pensava a mesma coisa?

Cardabal era muçulmano do norte da África. Aprendeu a lutar defendendo sua cidade das tropas de Hommel. Explodiram um hotel cheio de nazistas no Marrocos há dois anos. Depois disso ele foi integrado ao exécito aliado. Eu já tinha visto isso em outras pessoas. Ele tinha a loucura da guerra. Pra ele seria bom se aquilo durasse toda a eternidade. A eternidade para fazer verter o sangue. Para se vingar das agruras do mundo.

Engraçado. Ali, naquela sala destruída de um sanatório, tinha gente de quatro continentes. Gente que nunca teria se conhecido se não fosse a guerra. Um paraibano, um japonês, um africano e três europeus unidos pela sobrevivência. Era um pedaço do mundo.

O Valentino já devia estar começando a voltar. Eu gostava muito daquele garoto. Eu estava cansado daquilo. Valentino era um bom garoto, podia ser o que quisesse e estava ali se arriscando. Pelo quê? Haviam tantos lugares de paz onde gente como ele poderia se refugiar e esquecer tudo aquilo. Eu começava a duvidar. Duvidava dos aliados. Duvidava se estávamos mesmo fazendo o que era certo.

E o Vargas? Sabia coisas difusas do Brasil. Os nazistas tinham afundado dois navios na nossa costa. Morreu muita gente e o Vargas continuava naquela política de camaradagem. De diplomatas já me bastava o Plonchet, aquele aristocrata almofadinha, com seus livros cultos e sua maneira superior de olhar os outros. Diplomacia não enterraria o nazismo e o fascimo para sempre.

E quem se importa? Ninguém sabia que eu estava ali. Não haveria uma reportagem do jornal O Globo se eu morresse. Ele era um apátrida lutando pela causa dos outros. Não, não era apátrida. Eu amava meu país. É isso, eu queria servir de exemplo. No começo sim. Agora não. Agora eu quero só sobreviver.

Mas no sanatório eu ainda acreditava. Ou começava a duvidar. “Vamos, Valentino! Estamos torcendo por você, garoto!”. Quantas crianças como ele estavam morrendo assim? A guerra é um aborto, mas um aborto necessário. Temos de extirpar o mal, como um câncer. Eu estava cansado, dois dias sem dormir e pensava nas cargas de artilharia dos fascistas que agora tinham silenciado.

Olhei para Jonesy. Ele estava de olhos fixos. Parecia querer tirar toda a coragem de dentro de si, mas eu sabia que ele tinha medo. Muito medo. Ele era meio idiota. Mas era um negro forte. Huritaga estava sereno. Plonchet observava tudo com um binóculo. Segurava a pistola com força. Cardabal sorria. O capitão Ternedor olhava tudo impassível. Grande homem o Ternedor. Ele nos inspirava a ter coragem.

Todos dizem que se vai a guerra por ideais. Besteira. Ideais podem ser até bons no começo, mas depois de um tempo a gente só obedece cegamente. Obedece a pessoas como Ternedor. Eu pularia de um avião sem paraquedas se aquele homem mandasse.

Frio.

A neve tinha parado de cair há mais de uma hora. Estávamos tensos. Eu não gostava da neve, ela me lembrava a derrota do Napoleão. Pelo menos os russos estavam do nosso lado dessa vez. Eu gostava dos russos, não era comunista, mas gostava dos russos. O Stálin tinha tudo para nos levar à vitória. Se fôssemos ganhar, seria pelos russos, tenho certeza. Mas eles estavam perdendo feio pros alemães.

Com certeza.

(Se vocês gostarem, continua…)

7 Maio, 2009

Nada é a luta

Ontem a noite

Pareceu ternura

E a lua

Iluminou

O extenso firmamento

Luz sobre  cimento

Liberdade e dor

E meu coraćão sentido

Orgulho ferido

Morte e sensatez

Motor do silêncio

O meu corpo lento

Mãos que configuram

A total simplicidade

A vaga luta da verdade

Contra o cais…

A onda quebra o mar

A onda quebra o mar

A onda a te levar

A onda a te tragar

A onda te sorri

Aonde queres ir

Aonde vais morrer

Aonde vou te enterrar?

30 Abril, 2009

Sabedoria

Fugere Urbem

24 Março, 2009

Das pequenas coisas

Aprendi a gostar de coisas simples. É engraćado isso, porque quem vê ese blogue desde o comećo sabe que a coisa não era bem assim. Antes de gostar do simples, eu gostava do conflito. Claro, isso tem sua explicaćão Minha vida inteira eu fui educado para o conflito. Logo, nada mais justo que, em meus textos, eu expressasse o conflito sempre que conveniente.

É que quando se está em permanente conflito, não é preciso pensar nas pequenas coisas. As pequenas coisas são pequenas e nada mais. Não importam. São coisas pequeno-burguesas…

Mas..

De uns tempos pra cá eu tenho dado razão a outra coisa: Diálogo. É claro, diálogo envolve conflito, mas certamente envolve mais. Envolve a necessidade de construir uma opinião comum. Portanto, diálogo envolve construćão.

E, portanto, agora vejo como as coisas dialogam entre si. Vejo como são boas as pequenas coisas que mantem o mundo…

Girando.

Pois as pequenas coisas

Justo por serem pequenas

Dialogam entre si.

Infelizmente eu percebi isso de um jeio bastante nefasto. Percebi ao ver uma gaivota, dando um rasante em Ipanema, sair com um peixe graúdo no bico. Não sei se peixe pensa…

Mas tive pena…

Pq naquele momento não havia conflito, nem dor. Havia sobrevivência de ambos os lados. E infelizemente um dos lados prevaleceu.

O lado das pequenas coisas.

Que mesmo pequenas

Potencializam-se

Em grandes dilemas

Em grandes conflitos

Diálogos

27 Fevereiro, 2009

Der poetry

Insanidade.

Um marcapasso marca as horas

Velhas senhoras me procuram.

Luas novas

Transparentes

Irreconhecíveis.

Sim, a escuridão me engole.

A torpidez mais infame

Maneirismos pusilânimes

Torpedeiam-me

Beliscam-me

Derrubam-me

Insistentemente.

Promíscuo.

Sei que aceito a pecha

Indolente

Que outras almas

Intransigentes

Me apegoam.

Mas, escarro

Com a alma enevoada

Escarro

Com o peito

Aberto e seco

Escarro

Indócil

Sobre o caminho

Escarro

Escarneço

Escureço

Esqueço

Me tranquilizo.

26 Fevereiro, 2009

Breves Parágrafos

Penso. Não por pensar apenas, pois seria fuga. Penso por fulgor, vagar. Penso por crepitar, pestanejar. Penso por acreditar que ao pensar eu mudo. E me mudo, mudo o mundo. Penso pois transformo. Penso pois me movimento. Penso, pois em um bom momento, tudo o que penso pulsa. E ao pulsar, a mão inefável do silenciar me possui. Penso mudo. Penso o mundo. Pensamento.

***

E do amor? Ah, o amor glorifica! Não pela incapacidade, mas pela transitividade. Amar sozinho é impossível. Amar é coletivo. Amar um é amar todos. O amor é um só, é transmitido. Amor é onda, não de mar, que destrói. Amor é onda de rádio, que perpassa todas as direções. Mas, como o rádio, o amor precisa ser sintonizado para ser ouvido. Ele está ali o tempo todo, mas para aqueles que não o ouvem, o amor é apenas um chiado insistentemente chato. Porém os outros, os que amam, para eles o amor é uma melodia. É uma bachiana, em compassos abertos e livres. Amor é assim, superlativo. Mesmo sendo intransitivo.

***

Mas então, Césio? Porquê brilhas? Não sabes que não carrego pilhas? Brilhas porque és morte e, sendo morte, levas e trazes ao mesmo tempo o perdão e o sofrimento. Mas brilhas. E por brilhares, trilhas em torno de ti as estrelas. Trazes dentro de ti o brilho da noite. Mas estás tão próximo que eu, lírico, falo contigo em segunda pessoa, mesmo estando a tocar-te. És lua cheia.

***

Falo-te

Não te cales

Vejas como nos olhos

Que baixo sobre os teus

Suspiro.

Vejo

Pelas cadeias

De equações inconsistentes:

Decifro-te, devoro-te.

Possuo a chave obscura

Seleta, que traz-te nua

Impávida

Livre.

Toco-te com os dedos

Lambo-te os seios

Lavo com meus beijos

A pele, a língua, a vulva

Os duros mamilos.

Vacilo.

Não por medo:

Respeito.

Vacilo para encantar-te

E no encanto, uma vez mais

Tocar-te

E no toque macio

Envolver-te

E no envolvimento

Levar-te

Para dançar

Nas estrelas

Para destruir

Planetas

Para caçar

Cometas

Para colecionar

Borboletas.

Possuo o encanto

E uso-o

Com sabedoria.

Pulso no mesmo ritmo

Do clitoris

E bato o coração

Anuviadamente.

Bebo teu suco

Ofereço-te

Meu sêmen

E no banquete atroz

Que lhe preparo

Possuo-te uma noite inteira

Para que todas as outras noites

Sejam

Apenas

Sombras

Enquanto

Espero

Experimentar

Suas

Delicadezas.

9 Fevereiro, 2009

Face

Face que a flor
Fornece o furor
Fenece a função
Fornica a razão
E finca a fusão
Felicitação

Lambe que a voz
Suave sucumbe
A face ilumina
A situação
E a noite domina
O dia termina
A fuga, fugaz,
Frutifica o chão

E fica na fronte
A face gentil de Anacreonte
Fundada
No inocente horizonte
Não sabe o lado de onde
A face supondo
Face que firma
Face marina
Face sublime
Pacificação

O pão que suspira
A fascinação
A indolente pira
Que sobe e domina
Que muda e consuma
E termina
E muda e transforma a sina
E muda a face
Ruborização

Face
Que se fosse outra face
Moeda falsa que passa
Moeda falsa que grita
Duas caras na mesma corrida
Em face do mesmo dilema
Fácil
Fático
Fálico
Fim
Confusão…

1 Fevereiro, 2009

complexo da maré

Aqui não tem solução

Aqui não tem cidadão

Aqui não tem nada, não…

Aqui nóis sofre terção

Aqui nóis vai na maré

Aqui a gente é na fé

Aqui nóis quer ser feliz

Aqui se assoa o nariz

Aqui procura encontrar

Mas já não resta lugar

Aqui é tudo de pé

Querendo saber de qual é

Aqui os manos comanda

Mas muda toda semana

Aqui é sempre verão

Aqui não tem solução

Aqui nóis vive no esgoto

Aqui se escorrega no lodo

Aqui se assiste a tevê

Aqui também BBB

Aqui nóis torce pro vasco

Framengo, Botafogo eu passo

Aqui também se faz festa

Bala no meio da testa

Aqui se tem casamento

Enterrado num caixão de cimento

Aqui se ferra na escola

Correria toda hora

Aqui não entra o BOPE

Gosto do Vagner Love

Aqui se morre de amor

Aqui se morre sem dor

Aqui se tem dor também

E passa a linha de trem

Aqui os meninos não dançam

Meninas andam sem trança

E chupo laranja o bagaço

Se estrago no pé o caroço

E vai ter show do Marlboro

Viva a furacão 2000

É carnaval do Brasil

Mas não vai rolar praia

É outra festa corriqueira

Meninas dizendo besteira

Me vou dançando meu break

Pedir mais um cafuné

Dançando na ponta do pé

Minha nega me chama Café.

28 Janeiro, 2009

Parte V – Pisco Sauer

Parte V – Pisco Sauer

Olhando para a última parte da viagem, penso que talvez tenha dado uma impressão equivocada do Chile. O Chile é um país incrível, cheio de pessoas incríveis, mas com costumes diferentes dos nossos. Se expus estas diferenças foi porque elas me tocaram profundamente e não por ter uma visão de superioridade/inferioridade entre as duas culturas. Ao contrário, é um erro terrível essa distância que nós, brasileiros, temos da América Latina. Este imenso continente, de gente que sonha e sofre como nós, tem sido visto com preconceito e desinteresse pelos grandes centros de mídia e pelos formadores de opinião.

Uma América latina unida é um compromisso fundamental que todos nós temos de assinar para a construção de um mundo mais justo, onde a voz dos fracos e esquecidos possa ser ouvida. Temos nossas diferenças, mas somos unidos no sofrimento, na exploração, na dúvida e na riqueza de culturas. Para aprender a conviver num mundo de iguais, é muito mais importante aprender a ouvir quem está perto, quem sofre como a gente e acredita em um mundo melhor. Ou vocês acham que os europeus vão fazer isso?

Bem, mas voltemos à história. Como eu estava falando, ia ter uma festa, organizada por brasileiros em território chileno. É claro, nós íamos estar presentes neste evento de proporções épicas espetaculares. E, após a terça-feira de muito trabalho, voltamos ao hotel (de madeira) e fomos nos preparar. Eu e o Francisco dividimos uma garrafa de bom vinho merlot enquanto esperávamos a hora de sair.

Foi bom dividir o quarto do hotel com ele (Rodrigo e Mazé dividiram o outro). Ele é uma pessoa incrível com quem tenho aprendido muito nos últimos anos. É bom saber que estou cercado de gente decente, que só quer o bem e que trabalha para um mundo melhor. Melhor ainda é saber que eu estou fazendo parte deste esforço e que estou tendo meu trabalho reconhecido por isso. Desta forma, a garrafa de vinho caía muito bem.

Olhei pela janela. Lá longe, podia ver os montes nevados da cordilheira dos Andes. Lindo saber que a neve estava tão próxima e mais bonito ainda era ver a cor dos montes mudando com o pôr-do-sol. A temperatura diminuía e eu colocava meu segundo casaco. Ouvi um pouco de rádio. Eu não entendia muito o quê eles cantavam, mas adorava o ritmo, a sonoridade e a emoção que eles colocavam nas músicas. Assistia também a CNN Chile e via as notícias sobre o novo pacote contra a crise mundial.

A noite caía lá fora e eu estava leve. Devia ser o vinho ou o cansaço de tantas noites mal-dormidas, além do trabalho do dia. Descemos por volta das dez e pegamos um táxi para o bar-danceteria onde ia ser a festa.

O lugar era incrível. Era como um grande barco (de madeira) com um bar no meio e um grande palco, onde DJ’s tocavam ritmos latinos. Entramos, comemos alguma coisa (não lembro o que era, mas era muito bom) e bebemos o famoso Pisco Sauer.

Pisco é o nome que os chilenos dão a uma bebida destilada feita de uvas brancas, uma espécie de cachaça de uva. Pisco Sauer é um drinque feito com Pisco e várias coisas que, na hora, eu não sabia o que era. Esta é a bebida do Chile, portanto, não podia sair dali sem beber aquele troço. E era muito bom. O Pisco Sauer é um drinque doce, mas como o Pisco é destilado, a bebida sobe muito rápido, ainda mais pra mim que sou fraco para bebida e estava com um pouco de fome.

Mas é leve. Não dá aquele gosto forte, que nem a cachaça. Muito gostoso. Bebi uma dose e, como já tinha bebido meia garrafa de vinho, resolvi parar por ali, pelo menos por enquanto. Fui me aventurar na pista de dança.

Pois é, esta é uma questão importante. Eu sempre zuei aqueles americanos que vêm pro Brasil e tentam dançar samba. O problema é que eu estava fazendo justamente a mesma coisa. Balançava os bracinhos, mexia as pernas, mas tava foda. Ainda mais quando subiu um cubano no palco (o único negro que vi em toda a minha estadia no Chile) e começou a ensinar a gente a dançar. Nossa, eu danço muito, muito, muito mal. Mal pra cacete. Ali que ficou latente essa minha… deficiência congênita.

Mas, não sei se por pena ou por caridade, as nossas amigas no Chile vieram dançar com a gente. Primero a Mazé (foi um caos), depois duas amigas vieram ensinar a mim e ao Rodrigo. Não sei se era efeito da bebida (eu já estava em outro drinque, não lembro o quê), ou o fato de estar ali só pra me divertir, mas aquela noite foi muito especial. Elas foram super pacientes, não ligaram pra gente não saber mexer as pernas e os braços de maneira conjunta (se bem que o Rodrigo tem um certo talento natural pra dança) e dançaram várias músicas.

E foi bom, sabe? Apesar do meu joelho fodido, eu sempre quis entender como se sente uma pessoa dançando. Sempre invejei os sorrisos, os olhares, a empolgação das pessoas quando elas tentam se mexer no ritmo da música. Talvez por estar em outro país e, por isso, poder pagar mico à vontade, não liguei nem um pouco se dançava errado. Apenas tentei fazer o meu melhor e acho que consegui.

E meu sorriso grande de dentes brancos apareceu muito naquela noite brasileira no Chile. Dancei samba, salsa, merengue, ringtones e vários outros ritmos engraçados. Foi muito legal e vou levar esta noite comigo pro resto da minha vida.

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Mas a noite acaba, a vida continua. A vida pode ser uma festa, mas não da pra ficar no mesmo ritmo o tempo todo. Quatro da manhã pegamos o táxi para o hotel. Fui olhando a baía de Puerto Montt (sim, eu estava quase tão bêbado quanto na viagem pra Sampa), as luzes da cidade de madeira que dormia.

Eu tenho muita sorte. Viajei mais de sete mil quilômetros para sair de Brasília e chegar a Puerto Montt e ainda viajaria muito mais durante esta semana, mas tinha muito o quê agradecer. O ano passado foi difícil, tive muitos problemas e talvez tivesse desistido se não fosse a ajuda de muitas pessoas. Agora que a ficha estava caindo que ia começar um novo ano. Fiquei ali, calado, pensando na minha vida (meus amigos provavelmente estavam preocupados em saber se eu estava entrando em coma alcoólico) e nos novos desafios que teria dali pra frente. A vida pode ser uma festa, basta encará-la de frente e torcer pra que tudo dê certo a maior parte do tempo.

E eu estava pensando ainda no ritmo, nos olhares, nos sorrisos das diversas pessoas que eu tinha visto naquela festa. Foi quando chegamos ao hotel. Subimos e, quando nos preparávamos para dormir, falei com o Francisco que ia dar uma volta. E fui.

Fui ver o Oceano Pacífico. Não sei porquê, mas era como se ele me chamasse, sabe? Eu tinha de ter uma conversa com ele. Imaginei Posseidon saindo do meio daquelas águas revoltas e me tragando para as profundezas escuras, onde ninguém poderia mais ouvir os meus suspiros. Aquele mar tinha engolido tantos navios, tantos corpos de tantas gentes ao longo dos séculos. Suas águas eram como almas revoltas, se contorcendo, pedindo ajuda. Milhões e milhões de afogados se debatendo.

E fazia frio. Sete graus, no termômetro da praça. Mas eu gostava daquilo. Aquela solidão. Lembrava-me o meu imenso céu de ilusão sem nuvens que eu tinha deixado em Brasília. Brasília, tão longe, mas tão significativamente entalhada em minhas entranhas. E eu compreendi que o amor não mede distâncias. O amor é eterno, mas na sua imensa magnitude fica comprimido no pequeno vão entre o coração e o estômago. O amor é infinito, como o oceano, onipresente, como as lembranças daquela noite. Mas, principalmente, o amor é exigente. Ele não descansa enquanto não toma conta de tudo. E foi ali, naquela noite fria do verão chileno que eu passei a admirá-lo ainda mais.

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Dormi menos de uma hora e meia. Às 08h00min saía o ônibus turístico da organização do evento. Conheceríamos as cidades turísticas de Frutillar e Puerto Varas, distantes alguns quilômetros de Puerto Montt.

Frutillar é uma jóia. Uma jóia de madeira, mas uma jóia. Ela fica ao lado do lago (COLOCAR O NOME) e muito próxima do vulcão Osorno. Olhei aquela água calma e transparente, aquele imenso vulcão adormecido coberto de neve e agradeci a Deus por tudo o que estava vivendo. E por não estar de ressaca.

Comprei um monte de lembrancinhas. Sim, momento turístico mode-on. Tirei um monte de fotos e fomos para Puerto Varas.

Esta cidade é um pouco maior, e também fica ao lado do lago. Tiramos muitas fotos, peguei uma garrafa de areia (sim, era areia de vulcão, oras, eu tinha de levar), nos divertimos bastante e fomos almoçar.

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Bem, o almoço mereceria um capítulo à parte. Foi um banquete digno de reis. Pisco, vinho, farta comida, boa música…

Conversamos muito, fizemos muitos amigos naquele dia. E foi bom também ver os professores dançando aquelas músicas engraçadas.

E eu sorri e me diverti muito.

********************

Bem, é isso, na próxima parte falaremos de como comemos pastéis (quer dizer, empanadas) como nos separamos de Francisco e como conhecemos um torcedor do Cólo-Cólo.

Abraços a todos.

24 Janeiro, 2009

Embriaguês

Escandalizo

Saio com as mãos fustigadas

Uno-me ao fio da navalha

Quando corro numa perna só.

Mas, se não corresse?

Que tipo de marasmo seria esse

Que me percorreria?

Passos uníssonos

Palmas contrabalançadas

Contra as sacadas

Iluminadas

Dos edifícios do Leblon.

Pernas eriçadas

Mãos entusiasmadas

Pois das sacadas

As alvoradas

Tão esperadas

Pela minha amada…

Não ocorrerão.

Ou será que não?

Se corro de uma perna só

Sou louco

Ou seleto

Esperto?

Singelo…

Nada como a sedução.

Ou não?

Contra as sacadas

Austrais

De poetisas

Vestais (mas não virgens)

Ouço o canto arbóreo

Cálido, como um meteoro

Que cai contra o cais.

Pois se as houvessem

Tais virgens

Talvez alguém as ouvisse

E as calasse

Não teria dó…

Reclamo, tudo bem

Minha

Face

Solicita

Lágrimas

Cínicas.

E me engasgo em mi bemol.

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Upideite: Quer ouvir a minha voz declamando o poema? Clique AQUI

23 Janeiro, 2009

Parte IV – Da escatologia aos costumes chilenos

E então chegamos à segunda-feira. Saímos do hotel de ônibus para ir à Universidade de Los Lagos, onde seria o congresso que eu ia participar. Então, ônibus, este é um assunto bastante controverso. Como falar disso?
Bem, os ônibus em Puerto Montt são bem velhos. Mais velhos mesmo. Assim, idade da pedra, sabe? E são todos made in Brazil (Marcopolo atravessando a cordilheira dos andes, Yeah!). Mas o lance mais engraçado é que não há empresas de ônibus. Cada motorista é dono do seu. Isso significa que…
Que cada ônibus é personalizado! Sim, se o cara gosta de Pokemón, ele vai encher o pára-brisa de adesivo do Pikachú. Se ele gosta de Nossa Senhora de Medjugórie, vai ter um milhão de imagens da santa penduradas em tudo quanto é canto do busão. Se ele gosta do Cólo-Cólo, além disso tudo, ele vai estar com uma camisa autografada pelo craque do time. É isso mesmo, senhoras e senhores, é a personalização elevada à enésima potência.
Há outras questões relevantes sobre os ônibus a serem tratadas neste singelo relato de viagem. Bem, além de velhos, os ônibus são, digamos, limpos como pau de galinheiro. Principalmente aquele ferro no alto que eu cometi o indelével deslize de me apoiar. Ali havia bactérias que viram o batizado de Dercy Gonçalves. Mas o transporte é baratinho.
E tem outra coisa que os chilenos tinham de exportar pra cá. É o coletivo. O coletivo não é um busão. É um táxi!
Mas aí vós, humildes e castíssimos leitores perguntar-se-vos-ão: mas no Brasil também não tem táxi? Sim, reponder-vos-ia se vo-lo me perguntassem. Mas lá também tem o táxi normal que eu e você conhecemos. O coletivo é uma idéia revolucionária. O cara do coletivo tem um itinerário que ele segue. Então em cima do carro tem uma placa falando nomes em chileno que eu não sei pronunciar. Aí você olha no seu papel onde tem letrinhas que você não sabe pronunciar e, se há uma semelhança, vc pára (ih, agora não tem mais acento) você para o táxi. E aí você paga 400 pesos chilenos e vai pro seu itinerário. Revolucionário, não?
Ainda mais quando você descobre quanto é, em reais, 400 pesos. Então, um real vale 270 pesos mais ou menos. Fazendo uma regra de três simples, chega-se à conclusão que 400 pesos equivalem a…
Pasmem…
R$1,50, mais ou menos. Para andar de táxi…
Isso não paga nem a bandeirada no Rio. Legal, né?
O busão normal custa 350 pesos ou R$1,30.
Maneiro..
Mas então, o Chile é um país muito barato. É tudo mais ou menos barato. Tipo, caro mesmo é só a coca-cola (o equivalente a R$6,00 uma garrafa de 1,5l). Mas tem outras coisas EXTREMAMENTE baratas.
Por exemplo, você vai na feira no Brasil e vai comprar morangos, na safra, paga R$2,00 por uma bandeijinha vagabunda com 100g de frutos horrorosos que ousamos chamar morangos. Eis que no Chile, pela incrível bagatela de três reais você leva UM QUILO DE MORANGOS DOCES, GRANDES, APETITOSOS E VERMELHINHOS. Um balde de morango por três reais!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
E o vinho?
Não, não falemos do vinho…
Tá, falemos do vinho…
Falo ou não falo…
Tá, falo…
Uma garrafa de um bom vinho merlot nacional. No Brasil isso custaria entre 20 e 50 paus. No Chile isso sai por uns 12. Por um vinho excepcional. Um vinho espetacular (150, 200 no Brasil) custa menos de 40.
Puta que pariu, eu seria um bêbado inveterado num país como este. Nessas horas agradeço por ser um brasileiro que não desiste nunca. Cara…
O Chile é um país onde as pessoas tomam cabernet sauvingnon antes de jantar…
Nossa…
Mas paremos de falar de vinho…
Por enquanto.
Vamos falar de outros costumes estranhos chilenos. O Chile é um país onde se toma água da torneira, o que é muito estranho. Mas há algo bem mais estranho. Bem, comecemos do princípio.
Como todos os que estão acompanhando a minha saga no Chile sabem, comecei a viajar de Brasília na sexta, certo? Cheguei ao Rio no sábado e todos sabem que banheiro de rodoviária é uma coisa que não dá pra usar. Então no sábado mesmo viajei pro Chile, chegando no fim do dia e de lá direto pra estrada, chegando a Puerto Montt no domingo.
Mas aí a gente ficou numa casa de família…
Isso significa que eu fiquei com vergonha de… ahn… de… de me desfazer do gostosíssimo almoço que minha mãe tinha me preparado três dias antes…
Portanto, chegando à universidade, esta vontade voltou com força. E aí voltamos aos estranhos costumes chilenos. E este costume estranho é muito estranho. É o seguinte, vós mulheres que assistis esta saga provavelmente não sabem, mas no banheiro masculino existe algo chamado mictório.
Mictório é um lugar onde os homens fazem xixi de pé, para a inveja de vocês. Pois então, no Brasil entre dois mictórios existe uma divisória feita de madeira, mármore, plástico ou qualquer outra coisa que permite que nós homens urinemos sem necessariamente ser observados pelo nosso vizinho enquanto fazemos isso. É uma necessidade social, sabe, porque nem todos os homens gostam de ser vistos em estado de broxitude extrema.
Além disso, mesmo nos piores banheiros deste nosso escatológico país existe uma parede (basculante) que protege as pessoas que estão do lado de fora do banheiro de ver as pessoas de calças arriadas sentadas no seu troninho e trabalhando pela poluição do oceano atlântico. No Chile isso não existe…
Nem a proteção do mictório, nem o basculante. Portanto, eu na minha sanha assassina de inaugurar os esgotos chilenos e ser o primeiro da minha família a lançar dejetos menos densos que a água em direção ao oceano Pacífico, me deparei com a asqueirosa visão de um doutor em matemática sentado em seu troninho. ISTO VISTO DO CORREDOR.
Bem…
Não é preciso dizer que eu não fui neste banheiro.
Nem nos três banheiros seguintes.
Quando finalmente cheguei à conclusão de que todos eram assim, subi até o último andar, no banheiro mais vazio, e cumpri minha missão escatológico-diplomática com todo o empenho de meu coração. Não sem antes gastar muita energia.
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Ok, admito qe este não foi o ponto alto da minha estada no Chile. Posso falar do frio, dos lindos vulcões eternamente cobertos de neve, do oceano, da comida.
Ah, a comida…
Nossa, é muito diferente…
Primeiro, a hora de almoçar. Seguinte, no Brasil as pessoas almoçam lá pra meio-dia, certo? É porque o Brasil é um país relativamente plano, então o sol nasce e se põe de forma relativamente simétrica em relação ao meio-dia. Explico. No inverno o sol nasce lá pras 7 e se põe lá pras 17:00. Na primavera, nasce lá pras 6 e se põe lá pras 18:00 e no verão, nasce lá pras 5:00 e se põe lá pras 19:00 (esqueçam o horário de verão, ok?).
No Chile não. Tem uma coisa chamada CORDILHEIRA DOS ANDES que atrapalha o nascer do sol. Agora, no verão, o sol estava nascendo perto das 6 no horário de verão de lá (5 no horário normal) e se punha lá pras 22:00. Isso significa que o dia é simétrico em relação às 14:00. Logo, as pessoas almoçam às 14:00. Mas isso no horário do Brasíl é 15:00. Isso significa que eu estava MORRENDO DE FOME na segunda-feira. E quando descobri um lugar para almoçar, não entedia uma palavra do cardápio. Eles iam servir vacuno. Caralho, que porra é essa de vacuno?
Como só tem vacuno, vai vacuno mesmo. E, como o encontro estava cheio de brasileiros, a fila chegou a dobrar o quarteirão no único restaurante que havia por perto. Isso significa mais uma hora na fila. Ou seja, eu e Rodrigo estávamos aceitando até vacuno cru (sim, isso é um trocadilho…).
E eis que, quando vemos a comida…
Era carne de gado, ou seja boi, ou seja vaca. Vaca = vacuno…
Hum, nunca na história daquele país eu tinha comido um vacuno tão bom. Dali em diante, toda vez que eu sentia fome eu gritava VACUNO!
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Não vou falar do congresso. É que eu fui ao Chile a trabalho e, embora vocês não acreditem, trabalhei bastante. Eu tinha objetivos bem claros: apresentar minha pesquisa ao mundo. Portanto, era preciso fazer muita diplomacia, estabelecer o máximo de contatos possível para que o governo brasileiro tivesse retorno do investimento que ele tinha despendido para que eu pudesse estar em território chileno.
Portanto, minha missão ali era basicamente diplomática. Meu sorriso largo de dentes brancos estava a serviço de sua majestade, o presidente Lula. E eu fiz questão de sorrir bastante. Fiz muitas amizades, principalmente entre os nativos. Conheci pessoas incríveis, maravilhosas, fantásticas e porque não dizer, espetaculares.
Mas era trabalho e trabalho é chato e, principalmente, não se publica em blog, ainda mais quando o chefe pode ler. Portanto, vamos falar de algo mais legal, a diplomacia. Mas, se vocês ficaram curiosos em saber, o mundo ficou feliz em conhecer minha pesquisa…

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Então, diplomacia. É incrível como, quando a gente sai do Brasil, a gente percebe como nós, brasileiros, somos diferentes do resto da humanidade. A gente tá sempre sorrindo. Tipo, pro brasileiro, sorrir é uma atividade que envolve de 50 a 90% dos músculos do corpo. Pra outros países, sorrir é mostrar os dentes.
É incrível também como as pessoas admiram isso na gente. Eles ficam meios tímidos quando a gente encontra a pessoa e dá dois beijos no rosto sem nunca ter visto a pessoa na vida. Também acham estranho quando a gente chega e dá aquele abraço.
E quando a gente chama uma pessoa que nunca viu pra festança que vai ter na noite seguinte? Eles primeiro se assustam. Depois olham e perguntam se somos brasileiros. E daí para virarmos amigos de infância são vinte minutos.
E, nossa, eu e Rodrigo conhecemos muita gente assim, contamos muita piada, fizemos muitos contatos. Mas, antes de mais nada, tenho de falar da festa brasileira organizada pelo M.B.
Bem, o M.B. é um professor brasileiro conhecido internacionalmente. Não falarei o nome dele aqui pois, obviamente, não sei se ele está interessado nisso. Pois bem, este douto professor organizou uma mega-festança-punk e convidou TODOS os brasileiros para irem em um local incrível de frente para a baía de Puerto Montt.
Eu e Rodrigo, claro, gostamos muito da idéia e convidamos TODOS os brasileiros que vimos. E, claro, todos os outros que conhecemos nestes dias, exceto os argentinos. Nativos, equatorianos, espanhóis, portugueses, bolivianos, peruanos, mexicanos. Era pra ser uma festa de proporções épicas, onde poderíamos fazer toda a diplomacia possível.
Bem…
A festa foi maneira…
Mas isso fica para o próximo capítulo, onde também falarei de como eu peguei terra de um vulcão ativo…
Até a próxima…

19 Janeiro, 2009

Parte III – Da Chegada à Puerto Montt ao Aeroporto de Madeira

Eram umas 11:30 da manhã e o sol brilhava entre nuvens. Não estava frio, mas ventava forte do oceano pacífico para a costa quando descemos do ônibus na rodoviária de Puerto Montt. A Rodoviária era toda de madeira. Desci com pressa. Queria ver o oceano. Nunca ninguém da minha família tinha visto o Pacífico. Me sentia desbravando um mundo novo.

Bem, particularmente eu prefiro Atlântico, o Pacífico é um oceano frio, violento. Parece que tá com raiva da gente. Eu sempre vi o Atlântico como um oceano acolhedor que, por algum motivo resolveu afundar a cidade de Atlântida. Provavelmente foi por engano (rsrsrsrsrs). Mas era um choque. Aquele oceano poderoso batendo em rochas escuras, provavelmente de constituição vulcânica. E atrás de mim a imensa cordileira. O Chile é um país entre dois colossos.

Mazé nos lembrou de pegar as malas. E pegamo-nas. Íamos ficar hospedados numa casa a alguns quilômetros do centro. Ela ligou para a hospedeira que nos levaria até a tal casa.

O carro subio uma grande falésia, de onde podíamos ver vários montes totalmente cobertos de neve, o oceano atlântico e a cidade de Puerto Monnt entre eles. Eu soube mais tarde que os montes brancos eram argentinos.  Vi bancos de madeira (tanto os finaceiros quanto aqueles onde depositamos nossas poupanças), prefeituras de madeira, igrejas de madeira, placas de trânsito de madeira, dinossauros de madeira, cachorros, peixes, carroças de madeira. E, para minha imensa surpresa, a casa onde ficaríamos era de…

MADEIRA!!!!!

É, a tecnologia dos tijolos ainda não tinha chegado ao Chile (kkkkkkkkkkkkkkk).

Brincadeiras à parte, era muito mais barato cortas as imensas reservas de coníferas que circundavam a região (com árvores de pinho, principalmente) do que retirar argila dos rios para fazer tijolos. Isso eu só soube dias depois.  O lance engraçado é que nós ficaríamos hospedados na casa ENQUANTO a família também estava lá. Mais um dos estranhos costumes chilenos, como tomar água da torneira.

Mas bem, voltaremos a falar desta casa depois.

Almoçamos, fomos ao evento, participamos da abertura com muitas danças típicas chilenas e muitas pessoas falando em espanhol. Ainda comi carne crua (sim, eles fazem canapé de carne crua…).

Fomos para o centro de Puert Montt, tiramos fotos, liguei para dona namorada de dentro de um shopping de madeira (mas foi minha sobrinha que atendeu…) e depois fomos pegar o Francisco no aeroporto.

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Então, o Francisco é o chefe. Eu, o Rodrigo e a Mazé somos bolsistas do mestrado da UFRJ e ele é doutor pela COPPE. Trabalhamos no mesmo laboratório e ele estava lá no Chile para supervisionar nosso trabalho e para apresentar trabalhos científicos. Então, claro, fomos os três para recebê-lo.

Estava frio, mas não muito e partimos para o aeroporto de Puerto Montt. Sim, era de madeira. Sim, o vôo atrasou. Sim, o frio ficou pior. Sim, fomos para a casa onde estávamos hospedados. Sim, decidimos mudar para um hotel na manhã seguinte.

Sim, essa parte da história ficou chata, mas a próxima é melhor.

Abraços a todos

P.S.: Resolvi incluir umas fotinhas clicaumentáveis pra ficar mais interessante o poste!

10 Janeiro, 2009

Parte 1 – De Brasília a Santiago

Então, vcs sabem que eu estou viajando para o Chile. Bem, eu só vou voltar na segunda, mas acho que devo contar um pouco sobre as coisas que aconteceram aqui. Saibam que vcs estiveram o tempo todo comigo.

Bem, resolvi começar pelo princípio. Tá certo que o princípio não é lá muito bonito, mas tá valendo…

É que o princípio foi muito triste. As duas semanas em Brasília foram, provavelmente, as melhores dos últimos meses. Eu e dona namorada vivemos momentos muito felizes, dividimos alegrias, sorrimos muito e acreditamos que a vida vai ser muito boa daqui pra frente. Mas, infelizmente, eu tinha de ir embora e mesmo estando muito a fim de ir pro Chile, sabia que isso significava estar longe da mulher que amo. Porém sabia que não havia outro jeito. Eu tinha de voltar pro Rio pra terminar o mestrado e tinha de ir pro Chile para apresentar minha pesquisa para o Mundo.

Mas doeu muito. Evitamos a despedida a todo custo, fizemos planos, aproveitamos as noites. Fomos dois loucos em um mundo onde a normalidade impera. E, no meio de nossa estranha loucura, a felicidade veio como um suspiro e ficou por vários dias.

E então, na rodoferroviária de Brasília, quando nos despedimos, era como se não houvesse mais suspiros, alegrias. Como se fôssemos nos despedir para sempre. Como se nossos olhos nunca mais fossem se encontrar.

E chorei, chorei muito quando o motorista fechou a porta do ônibus. Chorei como nunca pq sabia que não poderia ir contra o meu destino. Sabia que não devia seguir meu coração. Sabia que era preciso abrir mão agora para ter muita alegria depois.

E sequei os olhos, admirando a paisagem do cerrado. Aquelas árvores retorcidas pareciam tão tristes… Eram as árvores as amigas de minha solidão.

***

A viagem de ônibus para o Rio durou dezesseis horas. Eu esperava que durasse dezoito. Torcia para durar vinte e duas. É que do ônibus eu ia direto para o aeroporto. A mala enorme, uma grande mochila nas costas, os olhos fundos da noite em claro e às cinco e meia da manhã estava no Rio. Liguei para casa, dei notícias e rumei para o aeroporto.

Tinha de chegar ao aeroporto apenas às 14:30 e comprei a passagem do ônibus pensando em chegar mais cedo mesmo, mas não esperava que fosse tanto. Foi a primeira vez na minha vida que eu ouvi falar de um ônibus da Itapemirim que chegou adiantado…

Fui para um canto escondido do Galeão que eu já conhecia. Peguei um livro (A História das Guerras) e li sem parar por cinco horas. Cheguei até a II Guerra Mundial (modéstia à parte, eu leio muito rápido). Olhei para os lados. Tantas pessoas, tantos sotaques. A tristeza batendo forte ainda no coração. Liguei pra dona namorada. Quase chorei de novo. Mas era preciso ser forte. Ela me desejou toda alegria do mundo. Eu sorri. Ela sabia exatamente o que eu sentia. Amar é bom. Amar correspondido é melhor ainda.

O Rodrigo (grande colega de viagem que me acompanharia até a volta ao Rio) chegou faltando cinco minutos para as 14:30. Sim, eu estava desesperado. Sim, não precisava ficar desesperado. Sim, deu tudo certo. Sim, pegamos o avião a tempo. Sim, tivemos que pousar em São Paulo. Sim, eu estava nervoso.

A viagem durou seis horas, passamos pelas cataratas do Iguaçu (não, eu não vi, mas o piloto disse que passamos), pelo norte da Argentina e quando chegamos à cordilheira dos Andes meu coração quase parou. Era o monte Aconcágua, gigantesco, majestoso, assustador. Um imenso monte branco e marrom que tomava conta de toda a janela. Eu nunca tinha visto algo tão imponente em toda minha vida.

Me senti pequeno, subtraído. Compreendi melhor o quanto os nossos sonhos são insignificantes frente ao tempo. Aquela montanha sobreviveria a todas minhas lembranças. A eternidade era apenas um suspiro. A eternidade é maior que todas as palavras. Meu coração estava entregue a uma tremenda comoção. Via naquele momento algo que muito sonharam em ver, outros morreram tentando conquistar. Vi o ponto mais alto das Américas de cima, mas estando diante dele tratei-o com todo o respeito.

Eu vi o Aconcágua no pôr-do-sol e nunca esquecerei este momento. Eu vi as cores daquela terra e acreditei ainda mais em Deus e em sua imensa capacidade. Foi incrível…

Do Aconcágua ao aeroporto de Santiago foi um átimo, uma descida vertiginosa. Santiago ficava num grande vale, entre os andes e a cadeia de montanhas do litoral chileno. Chegamos quando começava a anoitecer.

Era hora de correr…

UPIDEITE!!!!:  CLIQUE AQUI PARA VER O MAPA DE BRASÍLIA AO RIO

1 Janeiro, 2009

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Abraços a todos