A Morte de João Augusto


 

Dei-te a morte,

Disse-me com o coração contrito

E a boca seca, quebrando em calafrios.

Mataram-te, me disseram.

Como foi isto?

Será uma baioneta

Ou um fio de espada

Será uma granada, um tiro, uma escopeta estourando na garganta?

Será um risco, uma queda, uma flor que desabrocha no espaço?

Mataram-te: ficam estourando na cabeça, duas palavras

O sentimento de impotência indescritível,

As mãos frias, o sangue circulando lento e denso

O coração enlouquecido buscando uma vida que se esvai…

Mataram-te, me disseram.

Quem ousaria? Que fiz de mim? Porque esta dor que insisto em não sentir?

Estou só. Beijo a morte e em vez de esperança busco uma solidariedade que inexiste.

Mataram-te.

Mataram-te…

 

Mataram-te…

E entrego o meu coração para percorrer os campos do inifinito…

 

 

Little Joy

 

Está escrito nas ruas, nas luzes e escuros, nos silêncios urbanos. Está escrito no vento que atravessa até os ossos. Está escrito no frio de janeiro. Está escrito na quietude da noite. Está escrito nas caras inchadas dos mendigos, nas perebas blenorrágicas e sanguinolentas. Está escrito na chuva que torna tudo mais leve, mais vistoso, levemente impressionista. Está escrito na arquitetura da cidade, na serenidade das coisas intangíveis. Está escrito nos sons inaudíveis da noite, nos roncos inocentes das crianças, na paz estimulante dos cemitérios.

O carro vara a noite eu sinto: ela está viva e me beija com sua alma esperançosa. Tão inculta e bela. Tão injusta e terrível. Assaz encantadora, embala-me com teu canto sirênico, com tua piedade atroz e indirecionada. Ah! Como todos são injustos com tua candidez! Como zombam por seres impiedosa…

A cidade está viva e teu coração pulsa na cadência dos que a constroem todos os dias. E sua alma vive com os sonhos dos seus filhos que afloram dos seus campos cerrados e das suas avenidas intransitáveis. Tuas lágrimas me guiam enquanto vivo contigo a expectativa de uma nova alvorada. Esperança: dizem que tu és capital. Vives dela, és tua irmã, és tua amiga e confidente. És teu espelho e com tuas asas guia uma expectativa renovada de mudanças.

Quero-te. Amo-te como nunca amei nada intangível. És a estrelas das impossibilidades, metade de meias-verdades. És um canto negro, embalado pelos martelos e enxadas dos candangos.

Despedida

Pensar não custa o silêncio, ela disse. Ele pegou o retrato dos dois sobre cômoda e olhou por muito tempo. É tarde, ele disse, preciso ir. Entreolharam-se. Não sabia ele se dava um beijo, um aperto de mão ou se saía dali sem nada dizer. Não era muito bom com emoções, ambos sabiam. Ela continuou olhando pela janela. Não dizia nada, não aparentava nada. Isto o deixava maluco. Sentou-se novamente e acendeu o cigarro. Estava escuro. Faça como quiser, ela disse. Levantou-se e foi à cozinha. Quer chá? Não, obrigado. Havia muito nãos naquela relação, ao menos para ele. No começo aquela distância deu uma sensação de mistério. Parecia que cada dia seria uma surpresa, aquela mulher seria uma surpresa constante. Porém, aos poucos ele percebeu que era árduo, que todo novo contato era uma dificuldade, que havia mesmo uma grande distância que ela insistia em colocar entre eles. E isso significava que não havia amor. E não podia haver notícia pior do que aquela. Por outro lado, todas as vezes que ele instintivamente tentou se livrar dela, não conseguiu. A vida dele era impregnada do seu cheiro, dos seus olhos castanhos e das sardas multiformes do seu rosto. Ele era um romântico incurável. Ela uma niilista incurável. Eu trouxe para você mesmo assim, ela disse. Sentou-se com ele na mesinha de canto do apartamento. Olhou-o fundo nos olhos. Silêncio. Sabe de uma coisa? Ele balançou a cabeça, interrogativo. Amanhã deve fazer sol. Ele fez uma careta. Não era isso que você queria ouvir? Silêncio. É tarde, eu devo ir. Você vai ficar, disse ela tranqüila. Ele levantou-se resoluto, derrubando a xícara já quase vazia. Ficaram os dois olhando o filete de chá escorrendo pelo chão. Nada disseram. Ele levantou-se e foi à janela com o rosto entre as mãos. Queria chorar, mas nunca ninguém lhe ensinou como se fazia. A vida o tinha moldado para ser duro, para ser inflexível, mas aquela mulher estava se mostrando mais dura do que qualquer coisa que ele já tivesse agüentado. Ela se levantou, pegou um pano na cozinha, limpou o chão e apagou as luzes. Vem pra cama, ela disse, amanhã tudo vai ser diferente. Silêncio. Ela se foi. Ele levantou-se, colocou o casaco e foi até a porta. Pôs a mão na maçaneta e pensou muito antes de sair. Ela ouviu tudo, quieta, deitada sobre a cama e olhando fixamente para o teto. Amanhã deve fazer sol, amanhã deve fazer sol, amanhã… ficou repetindo a si mesma entre lágrimas e soluços.

Da canção da noite…

Existe a essência e sobre ela eu não digo muito. Sinto. E existe o peito que bate fraco enquanto imita o descompasso de um amor pejorativo. E existe a dúvida franca, irmã que é da pureza e do desamparo. E existe o vento que toca a face augusta, com um encanto tão fugaz, que se liquefaz em gotículas de silêncios.

Existe o pensamento, o fio da meada que não se perde, nem se ganha. Existe o assalto ao eu-lírico. É um assombro! Uma indecência! Uma vulgaridade expor uma nudez tão profunda que profana e expõe minhas sinapses mais elementares.

E existe a boca que conquista a loucura e sensatez com o mesmo e desesperado ato de coragem. Ah, a intrépida ousadia dos jovens! O desapego dos sonhadores! O solilóquio das profusões interiores expostas em sangue e mel…

Indômita. Cai a noite e o pranto contínuo dos que têm fome devora o mundo com seus significados. Nunca tive solidão, ela diz. Sempre tive um braço forte para me levar nas noites pelo mar bravio. Nunca tive companhia, eu digo. Sempre errei solitário pelas noites da cidade em chamas. Jamais houve o que me aplacasse a dor e o prazer de ser quem sou.

Quem sou? Olho-me perdido no espelho e não reconheço a face enrugada dos meus infortúnios. Não vejo nos meus braços cansados o motivo de tanto desassossego. Ela me queria? Ela me esqueceu? Nada existe que não seja a pena que escreve alucinada neste pergaminho.

Eu sou o livro. Eu sou a face. Eu sou o verbo.

Eu sou a palavra encantada que é proferida na noite. Eu sou o mago. Eu sou o fim.

Reviro-me na cama acostumando-me a repetir pesadelos à exaustão. Onde errei, me diga?

Eu sou a porta. Eu sou o prédio. Eu sou a chave.

Eu sou a ponta morta do futuro. Eu sou o retalho da tua pele que arrancastes na hora de aflição.

Diga-me outra vez: amor. Diga-me outra vez: perdão. Diga-me sinceramente que te lembras de mim, que existes, que és… Que erras.

Ou minta que queres… É o que me basta.

A flor que em guarda

aguarda o beijo, temido

tem medo, sufoca

se esforça pra ser

    [mais]

 

        e eu canto à primavera

        mascarado, sucinto

com as cores mais belas

e terríveis

                [vindouras]

na boca, entre os dentes

um sorriso de escárnio

uma armadura e um gládio

prontos para a luta ao luar

        [infames]

E canto à primavera,

Porque sem ela

nem cor, nem beijo,

nem amor, nem sentimento,

nem nada

        [impávida]

Canto a ti, flor silvestre

que aos cantos colores quando vestes

as cores da paz e da guerra

ambivalente, pelos prados, pelas ruas

pelas casas das paixões que invades, nua

em pétalas e caules…

            [pendão austero e auriverde]

canto a ti, flor augusta

que com o fulgor de tenra idade

és eternidade, qual o amor

                [fugaz]

e quando canto a ti

quando sorris na cidade

embalsamada pelo concreto

de outro dia perdido

dás um grito inaudível, um gemido

um sussurro…

            [suicídio]

Sobre o tempo que faz falta…

Eu sumi, eu sei. Mas é que a vida real tem tomado muito tempo. Vida real, com pessoas reais, com problemas reais de importância suma e fundamental. Eu tenho estado em guerra contra inimigos muito mais fortes do que eu…

E às vezes eu desanimo. Penso um pouco sim. Penso na luta, penso na guerra, penso na estupidez de toda essa luta fratricida e vã. Penso em como as coisas seriam mais simples se as pessoas não tentassem competir umas contra as outras o tempo todo…

Ok, clamar contra a competição é ingênuo. Mas eu também acho contraproducente esse império de ignorância…

Diálogo é bom, mas implica em aceitar a visão do outro. Em ouvir, em ceder…

Quando você está em guerra acaba abrindo mão de coisas que você acha importantes. Esse blog ficou parado por muito tempo, mas agora vou me esforçar pra botar ele de volta pra funcionar, porque escrever aqui, mesmo que ninguém leia, me faz muito bem…

Então é isso. Posto um texto melhor em breve. Tem muita coisa sacudindo a minha cabeça…

Até

 

Sulk

Sometimes you sulk, sometimes you burn

God rest your soul

When the loving comes and we’ve already gone

Just like your dad, you’ll never change

Ouça no volume máximo!!!

E eu não entendo porque isso queima tão fundo. Como uma onda, um vulcão, uma explosão que me toma em todas as partes, uma energia que não me deixa ficar parado. Nem pés, nem mãos, nem braços. Sou o sentimento passando por cima das ondas. Sou grande, sou forte, sou indestrutível, sou eterno, mas estou no seu rosto quando vês seu filho recém nascido. I’m bigger, I’m falling above your cloud eyes, your instinct, your happiness, and even more. Sou a língua do profeta falando por bocas mortas e vivas, falando pelas pedras, pelas fontes e pelos animais. Sou uma fonte de bem-aventuranças. Sou o céu sobre ti, aquele que descansa seus ombros. Sou tua carne, teu sangue. Sou a primeira vez que sentistes que eras mais do que apenas ti. Sou mais e mais, estou em tudo, tu me respiras e gostas, tu me desejas de olhos fechados e abertos. Tu me vês em teus sonhos e me apalpas. Sou tudo o que queres ser. Sou a perfeição e a dúvida, a certeza e a coragem. E quando te negam tudo, quando não tendes nem a luz sobre ti, nem nada mais, sou sua esperança na qual agarras todas as suas forças. Eu sou o Bem, tu me conheces desde sempre. Eu que lhe carreguei nos braços quando não tinhas coragem de olhar nos seus próprios olhos. Eu lhe consolei quando choravas e te felicitei nos momentos de alegria. Eu estava contigo quando vistes o rosto da Glória e vistes teus maiores sonhos realizados. Sempre, mesmo quando jurastes que eras solidão.

E serei. Serei o que estará contigo na hora de morte, o que fechará seus olhos velhos e cansados na hora que se apagarem. E segurarei tua mão. E te levarei para a eternidade, onde haverá apenas dias de sol e sorrisos.

 

 

 

 

 

 

 

 

The House of the Rising Sun

Café com pão

 

Virtude.

Parcimônia.

Inconseqüência.

Solicitude.

Sagacidade.

Beleza.

Caos.

Serenidade.

Luminescência.

Candidez.

Loucura.

        Inconstância.

Suor.

Saliva

Sangue

Supressão     de    Singularidades…

Tepidez

poesia

.

    .    

        .

a poesia ferve…

Tremor

Suspiro

Sussurros    

Palavras

Marulho…

Mentiras

Um, dois, três, trinta…

Trinta e três

Trinta e Três…

Vejo

Longe

Vejo:     Perto…

VejoToco

Sinto

Vivo

Vegeto

Sinto

Penso

Sinto

Vejo

Veja

Ouça

Fale

 

[Faz onde colore a brisa coisas pela humanidade

Sonhe esse sonho sujo

Corra nu pela cidade

E depois quando fugir a força

É que virei a entender a sua sobriedade]

 

Pulso

Pulso

Pulso…

 

 

 

 

 

Paro…

Férias…

Este blog está de férias para o Carnaval.

Estarei fazendo poesias e vivendo a vida em qualquer bloco do Rio de Janeiro.

Escolha o seu bloco e deixe aí nos comentários que eu dou uma passada lá pra gente se encontrar

Abraços…

 

Roger Elias Tabaldi

Vulgo Poeta Matemático

 

Zona de Conflito

SOLDADO

Subo a colina. A ordem era para descansar porque o dia de amanhã seria decisivo, mas estávamos todos tão excitados no acampamento que sabíamos que ninguém iria pregar o olho. Por toda a noite ouvimos ao longe os foguetes da artilharia que explodiam sobre a cidade de Lefeur. Vez ou outra um avião nosso passava muito baixo, tão baixo que o vento das hélices balançava as cabanas improvisadas do acampamento.

Continuei subindo arfante, carregando o fuzil pesado em um ombro. Quase chegando ao topo do morro eu me abaixei mais por instinto do que por acreditar que alguém pudesse me acertar ali. Rastejando, com o fuzil na frente do corpo e o capacete metálico firme na cabeça, ousei dar uma olhada em Lefeur.

 

CORONEL

Dei mais uma olhada nos mapas dos arredores. A reunião do Estado Maior fora muito tensa, a um certo ponto o General La Fountain tinha esmurrado a mesa a fim de recuperar a ordem. Aquilo não podia ser bom. A tropa parecia insegura, quase a ponto de um motim. A questão é que a 2ª companhia, sediada ao sul de Lefeur, estava numa posição muito frágil. A linha de suprimento fora cortada e não se sabia muito sobre o estado dos soldados. O problema é que justamente esta companhia deveria ter um papel decisivo na batalha. Se o grosso do exército inimigo abandonasse Lefeur e fugisse para o sul por ali a campanha toda ficaria mais complexa. Quantos soldados já haviam morrido nesse cerco? Eu mesmo já estava perdendo a fé na vitória. Todos sabemos da capacidade de La Fountain, mas as decisões estavam ficando confusas. Deixar a 2ª companhia isolada numa situação dessas era perigoso demais.

O fato é que ele preferiu arriscar. O ataque a Lefleur, que deveria ter acontecido nesta noite, foi adiado para a manhã seguinte para que, à luz do dia, fosse mais fácil perceber uma fuga das tropas de Lefleur. Enquanto isso, um único soldado foi mandado à 2ª companhia para apresentar as novas ordens enquanto o bombardeio aéreo continuava. Um único soldado. Como arriscar tudo com um único soldado? Foi assim que Cardabal partiu.

CAMPONÊS

Muitos anos depois, me lembrei daquela noite. Estava frio e eu procurava desesperadamente algo para comer. A cidade fedia a cadáver. Por todos os lados era possível ver gente morta, bichos vadios se alimentando dos corpos insepultos que ficavam jogados na rua. O Exército Revolucionário Anarquista (ERA) não tinha muitos soldados mais em Lefeur. Uma parte considerável tinha saído há duas noites, prevendo o grande ataque, e se refugiado em Pontisan, Guaiacanal e em LaConcha, já do lado espanhol. Ali as coisas estavam mais fáceis. Porém, um efetivo considerável, de uns dez mil homens, resolveu resistir até a morte. Era o martírio, eles diziam, para que mais gente se solidarizasse à causa. Eu não tinha nada com isso, eu tinha fome, e nessa situação, mesmo os soldados barbudos do ERA não tinham o que comer. Cruzei com um rapaz de vinte anos que com o rosto bastante ferido que segurava uma baioneta e falava coisas desconexas. Eu tive medo. Havia muitos nessa situação entre os mártires.

Eu nunca tinha entendido direito a idéia de um exército sem general. No começo, muitos obedeciam cegamente às ordens de Juliette Le Branche, a donzela infiel. Mas ela tinha sido presa e morta em Paris há um mês, numa solenidade que o próprio ditador Saint-Hilarie tinha participado. Mas mesmo nessa época as coisas eram decididas pelos próprios soldados, na hora da batalha. E, surpreendentemente, a resistência estava durando muito mais do que o esperado. É claro que o apoio de uma rede mundial de solidariedade tinha sido decisivo. Em menos de dois anos, os principais países da Europa Ocidental tinham se tornado ditaduras terríveis. Começou na Itália, governada com mão de ferro por Saglieri, seguido pela França de Saint-Hilaire. Em pouco tempo, também a monarquia britânica tinha caído e o Rei Charles III decapitado em frente ao palácio de Buckinghan, sob a sombra do monumento à vitória. Mais recentemente a Holanda, Portugal e Espanha sucumbiram a ditaduras, embora a resistência na Catalunha estivesse dando trabalho. Por enquanto, o fiel da balança continuava sendo a Alemanha e a Rússia que permaneciam democráticas apesar das imensas pressões de todos os lados.

Todos os dias, pela fronteira com a Alemanha, pessoas de toda a parte, principalmente das nações livres da América Latina e do Norte da África, vinham lutar com a resistência. Eles vinham esfarrapados, muitas vezes sem nenhuma arma ou dinheiro, dizendo que lutariam pela liberdade em qualquer país. E vinham para a França e se intitulavam ‘Sans-Culottes’, juntando-se ao ERA. O lema dos soldados era: Pela Glória do General. E não havia general algum, líder algum que fosse mais importante do que qualquer soldado. Não havia comando, não havia hierarquia, não havia disciplina. Havia sim, aquela cidade perdida, cheia de mortos e fome. Ser livre era morrer de fome?

ALMIRANTE XAVIER

O plano todo tinha sido muito louco. Eu mesmo não acreditava que o Presidente tinha mandado fazer aquilo. A versão oficial é que as negociações com a liga européia continuavam andando e que os diplomatas estavam costurando para garantir a continuidade da paz. Porém, pelos bastidores, todos sabiam que a Alemanha tinha pedido ajuda, sabendo que a liga européia ia invadi-los em breve. A questão era o momento certo de começar a guerra. E ele estava ali, no meio do Mediterrâneo, comandando a quinta frota, num dos lugares mais perigosos do mundo, no meio de uma missão tão absurda quanto impossível.

A questão era que a guerra era uma conseqüência inevitável dos interesses em jogo. Embora a grande mídia estivesse engrandecendo a liga européia como salvadora do mundo, todos sabiam que a coisa não era bem assim. Com o crescimento das economias da América Latina, da África e da Ásia, as relações diplomáticas tinham ficado muito mais enfraquecidas. Apesar do declínio das economias européias, eles se recusavam a ceder o protagonismo nas relações internacionais. Com isso, subiram ao poder os ditadores na Europa, com a missão de recuperar os países, enfraquecidos por décadas de um “sistema democrático fraco e corrupto, prostituído por uma horda de imigrantes horrendos”.

Quantos brasileiros já tinham ido fazer guerra sozinhos, sem qualquer treinamento? Ninguém sabia ao certo, mas o fato é que já passava e muito dos dez mil. Todo mundo conhecia alguém que tinha juntado tudo que tinha para fazer guerra num país desconhecido. A maior parte ia pra França, mas muitos estavam agora nas montanhas da Catalunha, onde acreditavam que poderiam se reunir para tomar Madri ou Paris. Outros estavam em Trieste, no norte da Itália, onde a resistência anarquista estava se organizando.

A verdade é que eu sentia orgulho. O presidente havia tomado decisões difíceis. Três anos antes, num movimento ousado, agentes da ABIN conseguiram resgatar Willian, herdeiro do trono inglês, poucas horas antes de ser executado. Agora ele era um refugiado no Brasil.

Lefeur era a cidade, ali aconteceria o começo da resistência internacional à liga européia. Se tomássemos a cidade, certamente as nações da liga do sul se uniriam a nós e o caminho até Paris estava quase garantido. E com o exemplo, os catalães teriam mais força para se levantar contra Madri. Era uma questão de tempo.

Eu estava excitado. Agora faltavam poucos minutos. Mandei as ordens para o contra-almirante e fui para a sala de comando. Olhei para o relógio. Sete para meia-noite. Já era possível ver as luzes de Port-la-Nouvelle.

SAINT HILAIRE

Tinha passado o dia trabalhando. Era noite e tomava um Bourbon. Com La Fountain em Lefeur, a vitória seria certa. Há pouco havia falado com o presidente da Itália. O plano ia bem. Após Lefeur eles partiriam para Trieste para encerrar o foco da resistência ali. Então sobraria apenas a Catalunha, mas ali haveria um gosto especial. A Alemanha dava mostras de cansaço. A liga pela família estava se tornando cada vez mais forte por lá. Era só uma questão de tempo até que eles tomassem o poder democraticamente. O fato é que as minhas reformas estavam dando certo. O desemprego diminuiu e o sentimento francês há muito tempo não era tão forte. Todos trabalhavam unidos por uma grande França.

Eu sabia que a resistência em Lefeur não seria tão grande. Poderia usar aquilo para esmagar de vez aqueles insetos latinos ridículos. Claro que ninguém sabia que o que estava sustentando a economia francesa era o dinheiro dos republicanos americanos que pretendiam uma ofensiva mundial contra a liga do sul em breve. Mas o fato é que ninguém queria uma guerra de proporções agora.

O CATALÃO

De lá eu já podia ver as luzes de Lefeur. Se a informação fosse certa, eles entrariam em contato com a 2ª divisão em poucos minutos. Mais uma missão suicida, mas por enquanto eu estava tendo sorte. Rezei um pouco para a Virgem dos Remédios. Olhei para o relógio: dois para a meia-noite. Fazia frio. Levantei a bandeira e olhei para trás. Tinha orgulho disso. Conseguimos, em menos de cinco dias, cobrir os cento e vinte quilômetros que separam Bagá, onde o grosso da tropa do ERA havia se juntado, da cidade de Lefeur, passando por montanhas íngremes. Éramos cem mil e andávamos tão silenciosos que ninguém diria que éramos mais de vinte.

O SOLDADO

Dali a pouco eu veria os soldados da 2ª companhia. Era quase certo que eles estivessem esperando por mim. Precisava correr. Em pouco tempo estouraria o prazo. Apertei fundo as ordens sobre o peito e corri desembestado pela colina abaixo.

 

As bodas de Fígaro… (mozart)

Da arte de ser feliz III

I’ve lived a life that’s full

I traveled each and every highway

And more, much more than this

I did it my way

A gente tem metas. A gente tem sonhos. A gente tem expectativas. A gente abre mão de coisas, esperando conquistar outras. A gente corre atrás, vira noites e noites. A gente se supera, bota pra fora todos os meios. A gente conquista, comemora, vive um pouco. E aí a gente cria novas metas, novos sonhos, novas expectativas. A gente abre mão cada vez mais. A gente conquista cada vez menos. A gente se frustra e passa a sonhar cada vez menos. E a gente se contenta. E a gente vive com pouco, contando dinheiro e tirando de onde não tem. A gente não vive mais, vegeta. Não lê livros, não vê filmes. A gente emburrece. Passa a assistir coisas na televisão. A gente vê Faustão e acha divertidíssimo. A gente espera as vídeo-cassetadas. A gente tem de dormir cedo, mas espera até o fim do fantástico. A gente engorda, come porcaria, sorvetes. A gente tá sempre sozinho e parece que todo mundo em volta conquistou alguma coisa, virou alguém. A gente deseja, mas não corre mais atrás com medo de se frustrar. E nem se apaixona mais, e nem se pergunta mais nada. A gente vive a vida apenas pelos seus instintos: comer, beber, cagar, respirar saber fofocas e torcer para algum dia ter bom sexo ou mesmo um sexo meia-boca pra dizer que tem. A gente também compra pra dizer que tem: Grill do Geoge Foreman, Faca Ginsu e calça da Taco. A gente se olha no espelho e não se reconhece com os cabelos brancos, os olhos fundos e a cara gorda. A gente chora sozinho, esperando quem sabe um colo, menos, um abraço, menos, uma mão, menos, um olhar que seja de compreensão. A gente abre mão do orgulho pra esperar cada vez menos dos outros. A gente começa a querer crer, mas sabe que não vai acontecer mais nada. A gente deseja filhos, mas sabe que nunca vai conseguir uma esposa pra dividir a vida com a gente. A gente ouve sermão das pessoas, dizendo que a gente tem de se esforçar mais, se virar mesmo, pra ser mais bonito, mais jovem, mais magro e mais feliz. Eles dizem que é fácil, mas porra, não fode com minha vida que ela já tá fodida demais e eu não quero mais chorar, quero sorrir, mas não dá, não dá, eu sou fraco e fui vencido e ando com as costas curvadas porque não consigo mais olhar ninguém de frente. E então eu sinto dor, eu tento me amar, mas não consigo. Eu sei que não há ninguém que vá me amar. Que nada vai ser o bastante. Mas mesmo assim a gente se ilude por aquela pessoa que chega mais perto, mais perto… perto o suficiente pra ferir. E a gente cansa de novo e vê que não vale a pena. E aí ouve Sinatra e se lembra daqueles dias, lembra do passado, lembra daquele cheiro de Chanel e do salão lotado de desconhecidos. E a gente pensa, meu Deus, como seria bom, uma vez mais, vestir o fraque, a gravata borboleta e colocar gel no cabelo e conduzir alguém, mesmo que seja uma desconhecida, conduzir, deixar que ela dance uma música apenas, mas que nessa música ela se sinta única. E deixar que ela se sinta especial e que ela baile como se não tocasse os pés no chão, olhada, desejada, invejada, admirada. E ver um sorriso sincero, os olhos fechados, o corpo se movendo em êxtase enquanto eu a levo… ah! Uma noite, não, um baile, não, uma música apenas… mas não. Escovo os dentes, passo fio dental, esfrego no rosto aquele creme antirrugas que alguém me deu de presente há dois anos, visto meu pijama e deito ainda com os compassos da música em meus ouvidos. E passo a noite sozinho, me remexendo em minha cama com medo de ter pesadelos.

 

 

 

 

Da arte de ser feliz II

É noite. Tento ficar desperto, mas é cada vez mais difícil. Por outro lado, dormir é impossível. É noite e das janelas dos apartamentos eu posso ver várias luzes acesas. Alguns fumam nas janelas e outros tantos assistem televisão. Nem cigarro, nem tevê. Eu saio. Ando pelas ruas vazias. Passam ônibus para itinerários que eu não conheço, bairros cujos nomes eu vi em algum lugar, talvez no jornal, talvez nas paredes pichadas nas ruas, talvez em algum livro antigo do colégio. Eu tenho medo. Penso em minha vida enquanto um travesti me oferece sexo fácil. Eu nego. Entro por uma rua escura que eu não conheço. É quente. Ali não passa vento e posso sentir o cheiro rançoso de cigarro, de suor e de sexo. Eles falam alto, eles gritam, eles me oferecem cerveja choca, um baseado e alegria fácil. Eu fico, não há nada melhor pra fazer. Bebo com desconhecidos, pago uma rodada, duas. É tudo tão alegre. É tudo tão fácil. É tudo tão falso.

Levanto-me da mesa, meio tonto. Ando mais um pouco. As putas sorriem com dentes podres. Uma, duas, cinco, vinte. Em fila como num batalhão de fuzilamento, com roupas curtas e berrantes, mostram o corpo. Sorrio. Uma me toca, me oferece. Pergunto o preço. Digo que não. Ela sorri, oferece um desconto. Eu digo que não. Eu ando pela rua, eu tropeço em um cão vadio que mexe no lixo. Me encho de lixo. Me banho de lixo. Me levanto. É noite. Ando a esmo por lugares desconhecidos. Os carros passam, alguns com o som alto, alguns com luzes várias. Minha cabeça roda, she rides, she rides. There is insanity and chaos, and closing clouds hiding the sky. But I’m alone, again.

E eu cantarolo uma música de infância. Uma brincadeira de roda com palmas e danças. But I’m alone, again. E eu não me lembro de nenhum amor, nenhuma história de paixão verdadeira nos últimos cinco anos. Será que eu vivi mesmo ou será que estes cinco anos de trabalho foram os verdadeiros anos da minha vida onde deveria deixar algo que fosse lembrado, algo que me orgulhasse e não desconhecidos em bares imundos? Não sei.

Entro por uma praça, onde mendigos acordados bebem. Bem ao centro, uma grande estátua de dama sentada, olha altiva para o horizonte. Ela parece tão… maternal… introspectiva… sedutora…

Olho para aquela alegria marmórea, implacável. E me emociono. Subo, escalo suas pernas e me deito em seu colo, acolhido, amado, como nunca fui. E durmo, todo o resto da noite, como não dormia há muitos anos.

 

 

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 87 other followers